domingo, 15 de março de 2009

António Barreto, um verdadeiro leitor da vida!

“Um espírito original sabe subordinar a leitura à actividade pessoal. Ela é para ele apenas a mais nobre das distracções, sobretudo a mais enobrecedora, pois só a leitura e o saber conferem ‘as boas maneiras’ do espírito”.
Marcel Proust, in O Prazer da Leitura, 1997, p. 56

É sempre com ansiedade, curiosidade e expectativa que inicio a leitura aturada da Revista Ler. Já há muito o não fazia, mas desta vez aconteceu. Tenho de agradecer à Drª. Cristina por me ter proporcionado a sua leitura e, perante tal publicação, o desafio começou logo pela capa (Revista Ler, Março 2009, nº 78). António Barreto iria abordar a problemática da leitura na actualidade. Logo toda a minha enciclopédia de autores, investigadores e experiências foi “activada”.
Como sociólogo e, sobretudo, pensador das questões que mais assolam a sociedade portuguesa, não me desiludiu. Ora vejamos. António Barreto, um intelectual com origens e vivências no Douro, sempre viveu rodeado de livros, de literatura. Contudo, é a mãe quem lhe oferece o livro que o marca para sempre, aos 15 anos. Chamava-se “A Noite Sem Lua” de John Steinbeck – um romance que revela a vitória inevitável da liberdade humana sobre a violência (os movimentos da Resistência da Europa ocupada pelos nazis). Mas mais tarde, exilado na Suíça, outra obra o marca na esteira da anterior: “Le Silence de la Mer” – uma novela de sabor patriótico, também passada na Europa da II Guerra Mundial. O silêncio do mar é uma metáfora bem expressiva daquilo que o fundo do mar é capaz de guardar (os segredos, neste caso de duas pessoas que nunca se deixaram subjugar pelos ideais nazis e sempre enfatizaram a cultura francesa e os ideais da liberdade).
Façamos aqui eco de um pequenino, mas sentido, poema de Sophia de Mello Breyner que ilustra o papel do mar na literatura (o seu sonho de liberdade, tal como aconteceu com António Barreto):
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Hoje, Barreto lê toda a ficção, mas com uma finalidade: compreender a nossa sociedade e perceber o momento, tal como o fez Eça de Queirós.
A literatura tem, para António Barreto, a dupla função: apreciar a escrita e trabalhar a sociedade, partindo daquilo que o autor lhe dá (a visão da evolução da sociedade). E quem não concorda com isto? A função do texto literário é imensa. Para além da dimensão estética e valorativa, a dimensão social é fulcral. Só estudando e percebendo o pensamento dos nossos vultos da Literatura, poderemos construir a nossa identidade, compreender as nossas raízes, poderemos ser interventores na sociedade. A Literatura tem de ser compreendida, reflectida, ponderada e articulada com todo o cosmos. Reparem o que nos diz António Barreto: “… a leitura é meditação, é tempo de saborear, tempo de ponderar o que se está a ler, de parar, voltar, recomeçar (p.38)”. Mais à frente, num outro artigo desta Revista Ler é Filomena Mónica que é assertiva no que respeita à Literatura e análise do texto literário: “A análise de um texto não deve ser feita como se de uma bíblia se tratasse”, porque “a obra é escrita por um ser de carne e osso, com um trajecto, com emoções e com manias (p.57)”.

Tudo isto nos faz reflectir, mas para chegar à problemática da leitura e o papel da escola. Concordo que até certo momento da nossa História, a leitura sentida, prazenteira e significativa não era praticada. Mas hoje a situação mudou; não tanto como desejaríamos, apesar de ser uma das preocupações que está bem no cerne de qualquer instituição de educação e o PNL é o testemunho do que digo. Não chega. É necessário que a família também se envolva para que toda a sensibilização e motivação que se tenta transmitir não se desvaneça. Todos estamos empenhados na melhoria dos níveis de literacia dos nossos alunos. Já se dá conta de muitas actividades e projectos que se vão realizando e que têm dado os seus frutos. Concordo, no entanto, que a aposta não seja apenas na informática, nem que alguém critique a “cultura livresca”. António Barreto tem toda a razão quando diz que “o livro é a melhor maneira de transmitir cultura”. Não esqueçamos que a Internet produz informação, mas não produz conhecimento. Reparem na delícia com que este sociólogo nos presenteia (p.39):

“Adequar o tipo de livro à pessoa em causa. Depois, pôr de parte, até muito tarde, tudo o que é instrumento, estrutura, forma. No essencial, chamar a atenção do jovem para o sentido, para a narrativa, para a história. É como no amor: o que conta é o sentimento, o ver, o beijar. É isso o que se deve ir buscar à literatura…”.

É, na verdade, uma entrevista desafiadora, mas realista. Há que procurar o bom senso entre a literacia computacional e a literacia em leitura para que não surjam barbaridades como as que se revelaram no Magalhães. Antes de tudo, uma sólida preparação ao nível da leitura e da escrita, servindo-nos de todos os suportes, incluindo os informáticos, para que melhor se utilize a informação online.
Ora, a propósito da importância da leitura e do livro que António Barreto tão bem abordou e criticou, eu não podia deixar de fazer referência a Fernando Pessoa e à polémica do seu espólio (as chamadas arcas sem sossego de que a família fala na mesma Revista). Estão ali publicadas algumas cartas originais, entre elas uma de Almada Negreiros, traduzida por Fernando Pessoa, mas que ilustra o quão importante era o livro (p.44):

“Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se (…)”.

Reparemos nesta última frase. Que crítica mordaz vos sugere? Será que hoje estas palavras se aplicam? Deixem que vos diga: estão actualíssimas. O mundo, ou seja, as pessoas necessitam da leitura para que, em certas situações, se libertem do que as preocupa, do que as oprime, do que as angustia. Uma boa leitura liberta-nos. Deixo-vos como desafio essa frase realçada. É para isso que serve a nossa comunidade de leitores: desafiar, reflectir, gerar ideias, pôr em comum.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Livros publicados pelas nossas colaboradoras e Amigas

Recursos e Percursos - para avaliação de desempenho de professores de Isilda Lourenço Afonso

"Esta obra nasce das dificuldades sentidas no terreno como professora, mas também como formadora no âmbito da Avaliação de Desempenho dos Docentes (ADD). De uma forma geral, tentámos focar a nossa atenção nos aspectos mais pragmáticos do avaliado e propor algumas pistas para instrumentos essenciais numa avaliação que se deseja equitativa, honesta e justa.Os percursos relacionam-se com os momentos cruciais deste processo e os recursos constituirão e concretização e organização da prática lectiva e de todo o trabalho nas diferentes funções que os docentes desempenham no quotidiano."
Não podia deixar de fazer referência ao livro publicado muito recentemente pela nossa colaboradora e Amiga Isilda; ainda não li mas tenho a certeza que é muito bom.

Leituras- Prácticas Sedutoras de Lídia Valadares
Para quem é fã de leitura e pretende dinamizar em escolas, bibliotecas ou em casa esta boa prática; recomendo também o livro da nossa, também colaboradora e Amiga, Lídia Valadares, sobre as prácticas sedutoras da leitura.
Este livro é realmente muito interessante e útil para fomentar bons hábitos de leitura nas nossas crianças. (recomendado pelo Plano Nacional de Leitura)

quinta-feira, 12 de março de 2009

O Melhor do Mundo são as Crianças

Ofereceram-me este livro, como já referi anteriormente noutro post, e adorei. Obrigado...
É uma antologia de poemas e de textos de Fernando Pessoa para a infância; e achei delicioso!
Por um lado, porque em diversas ocasiões, ouço dizer que determinados poetas ou escritores só dedicaram a sua escrita aos mais jovens ou adultos, esquecendo-se das crianças. Preconceito...!!! Leiam este livro e irão ver que Fernando Pessoa escreveu vários poemas ou textos para entreter as suas sobrinhas.
Por outro lado, participei numa acção de formação "Leitura a par" dinamizada pela minha querida Amiga Lídia Valadares e sabem o que encontrei neste livro... vários dos poemas que ela salientou como sendo de referência para as nossas crianças, sejam elas: alunos, filhos, sobrinhos ou conhecidos. Leiam e aproveitem o momento:
Pia, pia, pia
O mocho,
Que pertencia
A um coxo.
Zangou-se o coxo
Um dia,
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia...
(p.12)
Poema Pial
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número Um,
para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número Dois,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número Três,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número Quatro,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número Cinco,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número Seis,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número Sete,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número Oito,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número Nove,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número Dez,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
tampa nas pias!
(p.21-22)
A autora deste pequeno livro de antologias de poemas de Fernando Pessoa, é Manuela Nogueira, sobrinha do nosso conhecido poeta e relata-nos como foi a sua infância com seu tio. Aconselho também a leitura do artigo da revista LER sobre Fernando Pessoa.
"(...) No entanto, a irmã Teca contava que o Fernando se interessava muito pela leitura e passava muito tempo recolhido no quarto a ler. Já nessa época tinha muitos cadernos, que não lhes mostrava e que ela só mais tarde viu, onde havia listas delivros que queria ler, poesias em inglês e muitas charadas. Adorava charadas numéricas e outras. Mais tarde com o nome inventado de Abílio Quaresma escrevia contos policiários (como chamava aos contos policiais) e arquitectava charadas." p.54

quarta-feira, 11 de março de 2009

La Religieuse

Na obra La Religieuse, está presente a sátira social e a literária que põe em causa o género romanesco tradicional. Esta obra caracteriza-se por um descosido aparente e desordenado – é a forma divertida que o autor utiliza para revelar aos leitores que os romances tradicionais os enganam. Esta forma desorganizada serve também para mostrar a falta de liberdade de que o homem é vítima: o homem não é mais do que uma marioneta manipulada pelo destino.

Com efeito, ao «desconstruir» o romance, Diderot força o leitor a reflectir sobre a condição humana e a ilusão romanesca, a tal ponto que este já não sabe o que é falso nem o que é verdadeiro.
Diderot enveredou pela sátira criando um elo de ligação entre a não-ficção e a ficção e utilizou o processus do romance - memória para dar uma lição filosófica e criar o universo cárcere dos conventos.

Diderot concebeu a sua obra tendo dois tipos de discurso, um mais comovente para impressionar e provocar a compaixão dos leitores e outro mais acusador e reivindicativo capaz de convencer o mais intelectual dos homens.

As descrições físicas retratam a desordem e a nudez contrariamente às regras convencionais. O sofrimento foi personificado por uma extrema violência resultante do encarceramento e da agressão psicológica que conduziu a uma constante mutilação…

O livro apresenta uma imagem horrenda da vida no convento, do martírio das jovens no intuito de causar piedade aos leitores.

La Religieuse é sem dúvida uma visão audaciosa, porém oposta à esperada vida de meditação de fé dos conventos, que escandaliza o Mundo.
Nota:8/10

terça-feira, 10 de março de 2009

Coraline e a Porta Secreta

Sinopse: "Coraline Jones é uma curiosa e aventureira menina de 11 anos. Ela acaba de se mudar do Michigan para o Oregon e, sentindo falta dos amigos e vendo os pais ocupados demais com o trabalho, realmente duvida que seu novo lar possa lhe oferecer algo intrigante. Mas ela percebe que está enganada ao descobrir uma porta secreta dentro de casa que leva a uma versão alternativa de sua vida. Superficialmente, essa realidade paralela é parecida com a sua – só que muito melhor."
Esta foi a nossa leitura em família: eu e a Carol. Como sempre, ela leu em primeiro... Confesso que a deixei ler com um pouco de receio, sabia que a história era um pouco assustadora para crianças (parece que o filme é um pouco assustador para os mais pequenos).
A verdade é que se leu o livro sem grandes dramas ou pesadelos... Ela gostou e a parte que achou, talvez mais arrepiante, foi no final quando a mão anda à procura da chave.
Para mim, foi uma versão moderna do livro Alice no País das Maravilhas mas com cenas de terror para jovens. No entanto, achei deveras interessante se retirarmos a parte thriller; ajuda a reflectir sobre os valores da família, ao tempo que dedicamos aos nossos filhos, à coragem que existe dentro de nós quando sentimos que os que amamos estão em perigo.
"Eu não quero tudo o que quero. Ninguém quer. Nem por isso? Que graça teria se eu tivesse o que sempre quis? Assim sem mais nem menos e sem qualquer significado"
- p.92
É interessante, recomendo a leitura principalmente aos jovens e aos adultos. As crianças mais pequenas como a minha devem de ter acompanahamento na leitura, para perceberem as partes que podem ter alguma repercussão nos seus imaginários.
Não queremos por aí... crianças com pesadelos!
Nota: 7/10

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ainda o Dia da Mulher

Poderia falar de mulheres célebres que se destacaram neste ou naquele campo, mas, neste dia, prefiro deixar aqui uma mensagem singela, mas sentida, a todas as mulheres que são umas verdadeiras heroínas, no seu dia-a-dia. Escolhi estes dois poemas, que considero belíssimos, para partilhar convosco.
Um abraço.

O Inventário

De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.

José Saramago

Soneto à Mulher


Sou mulher na mais perfeita decisão
Feminina em aspectos, amarga em trilhos…
Tenho à carne, fina mistura no calor d’explosão
Da docilidade do olhar, à maturidade pra dar vida aos filhos

O feminino conceito é rotulado pelo mundo
De sexo frágil, plágio, concreta ou difusa…
Rosa escarlate, menina, inconstante, descarte…
Sou mais eu, aqui neste peito o sangue abusa!

Quero no mundo apenas meu lugar!
Nada mais justo, pois mulher eu sou.
Quero da vida apenas meus olhos brilhar!

Mesmo quando a idade me tragar,
Ainda assim serei ternura
Mulher eu sou, e disso ninguém me cura!

Ledalge, in Sonetos 2008
Lídia Valadares

domingo, 8 de março de 2009

Aceitar as mudanças e adaptar-se ao mundo!

Concluí a leitura de "O nosso iceberg está a derreter". Deixem-me dizer-vos que é uma autêntica parábola à mudança, ao espírito de observação, à união e ao espírito de comunidade.
Ao lermos e reflectirmos sobre os comportamentos destes pinguins aqui personificados, estamos a ver exactamente o que se está a passar à nossa volta. A crise social, com o desemprego, os efeitos da poluição, a pobreza, o tráfico de drogas e de pessoas... são os aspectos mais marcantes da nossa sociedade e que, ao ler o livro, me obrigaram a fazer a ponte. É urgente que nos unamos para a resolução destes espinhos. Eles estão ao nosso lado. Não os podemos ignorar.

O iceberg de que nos fala esta fábula, é o nosso planeta e os pinguins somos nós. Uns são os observadores, outros os críticos, outros os professores que se preocupam em abrir janelas nas mentes dos seus alunos para que também intervenham de forma construtiva. E outros são os "opinion maker" que só falam e pouco agem.

Se todos aprendessem a saber reflectir antes de agir, se todos se unissem quando há problemas a resolver numa comunidade, todos os problemas seriam resolvidos. E tudo vai da forma como se fala e se põe o ser humano a fazer uso das suas capacidades de adaptação e de mudança. Aconselho a leitura a todos os que neste momento têm de mudar de vida e, principalmente, a quem é educador. Foram dois aspectos marcantes, para além de outros, mas que sobressaem na tomada de decisões desta comunidade de pinguins.
No entanto, acabei a leitura de outro livro de Margarida Fonseca Santos e Maria Teresa Maia Gonzalez que vem na sequência do anterior e, por isso, decidi não apresentar os meus comentários independentes.
O título é "Um Pombo Chamado Colombo". Este livro é para crianças e jovens, mas toda a trama anda à volta de um pombo-correio que ficou desempregado por causa das novas tecnologias, lá num reino distante. Todo o cenário é composto de personagens da realeza, à mistura com vocabulário dos nossos dias e a perplexidade dos pombos daquele reino ao ouvirem as belas histórias do pombo-correio Colombo, quando o despediram do palácio. Foi o trabalho que conseguiu - contador de histórias. Maravilhava todos os outros e, com essas histórias, vários são os valores humanos presentes. Torna-se um discurso cómico, porque as narradoras utilizam um vocabulário muito próximo da linguagem dos jovens com os aspectos mais recentes da tecnologia e brincando com os nomes das pessoas. Ora reparem: a ilha era Malu-ka; a praça principal chamava-se Praça do Pombal do Marquês; o rei, Mandu-Ka Rex; a rainha, Ek-Manda; o primeiro-ministro, Manda-Lá; um dos conselheiros, era o Velho Sabe-Lá; os filhos do rei, Telex, Cibernex, Comilex, Spidex, Sem-Nex, Sabichex, Metalex, Calmex, Karatex e Belex (e todos bem adequados); os pombos - o Pombástico, o Ecopombo, a Pômbola, a Pombalina, o Pomposo, o Tombo...
Bem, convido-vos a ler e a divertirem-se com os vossos filhos, alunos, colegas, sobrinhos, etc. Mas há muitos aspectos culturais que os jovens aprendem de forma lúdica e que os pode levar à pesquisa. Tem todos os ingredientes para motivar para a leitura, mas também para reflectir.

Viajem com o Colombo, divirtam-se e ponham os outros a divertir-se.

Dia Internacional da Mulher

Subitamente, lembrei-me que, no dia 8 de Março, se comemora o Dia Internacional da Mulher e assaltou-me a curiosidade de saber um pouco mais sobre a institucionalização deste dia, o seu historial… e, como navegar na Net é vogar de onda em onda, quando dei por mim, tinha encalhado num pensamento de William Shakespeare que dizia o seguinte: “Fragilidade, o teu nome é mulher!” Fiquei, por momentos, atracada nesta frase… “Fragilidade, o teu nome é mulher!”?! E mais atónita fiquei quando pensei no seu autor. Seria o mesmo Shakespeare de Romeu e Julieta, de Hamlet, o célebre dramaturgo e poeta inglês? É certo que remonta aos finais do século XVI, início do século XVII!... Em todo o caso, fiquei a remoer o pensamento.

“Fragilidade, o teu nome é mulher!”
Porquê?

Será porque a mulher
Aguenta tormentas, furacões,
Suporta a mais dura tempestade
Passa por indizíveis provações
Com uma singular dignidade
Sem vacilar sequer?!

Será porque…
É ela que povoa o mundo
E depois de dar à luz
Num feminino sofrimento
Logo que vê seu rebento
Sorri e, no mesmo segundo,
O seu doce olhar reluz
Iluminando o firmamento?

Será porque…
Tem a rara qualidade
De, no palco desta vida,
Ser diversas personagens
E vestir várias roupagens
Segundo a cena exigida
Da implacável sociedade?

Agora mãe, depois mulher,
E no meio a profissão
Tudo exige, tudo requer
Dela, a melhor condição
E, quando despe as personagens
E pode ser ela, afinal?
Mais logo, noutras miragens!...
Será porque…
Aguenta estoicamente
Com incrível resistência
Combater em várias frentes
Com louvável diligência
(quantas vezes discretamente)
Procurando entrementes
Não perder a elegância
Nem a suave fragrância
Do seu perfume de mulher?

Estamos perante um dilema:
A mulher é frágil ou não?
Afinal, é o mesmo problema
Que assaltou este escritor:
“Ser ou não ser, eis a questão!"
Pois bem, eu deixo a minha resposta em poema.
À vossa consideração!
Curiosamente, na última revista “Sábado” (de 5 a 11 de Março), li um artigo baseado no livro (recentemente lançado) “Mulheres Aventureiras”, de Rosário Sá Coutinho, que fala precisamente de oito mulheres que, entre os séculos XVI e XIX desempenharam um importante papel económico e político em três continentes, consideradas heroínas fora de Portugal. E ironicamente pensei: “Estas não foram apresentadas a Shakespeare, apesar de algumas serem suas contemporâneas…”
Vou referir, a título de exemplo, os papéis relevantes de algumas delas: D. Maria d’Eça, na ausência do marido, capitão de Ceuta, tomou as rédeas do território português perante os avanços dos mouros e envolveu-se em negociações de paz; D. Maria Bárbara Garcês Pinto de Madureira, aristocrata minhota, tendo ido com o marido para o Brasil durante as Invasões Francesas, ficou a gerir sozinha o engenho do açúcar, em plena guerra da independência do país; D. Juliana Dias da Costa foi o braço-direito do Grão-Mogol, anfitriã de embaixadores europeus, médica e depositária da coroa; D. Antónia Rodrigues vestiu-se de rapaz, serviu numa nau, foi soldado, depois, promovida a cavaleiro, combateu contra os mouros e até o rei quis conhecê-la. Só se revelou mulher quando a quiseram casar…

Bem, deixo aqui, para vossa reflexão, alguns exemplos de fragilidades…

Lídia Valadares

sábado, 7 de março de 2009

Ninguém perguntou por mim

Como não podia deixar de ser, depois de conhecer em pessoa o escritor António Mota, li o livro que ele me autografou no passado Sábado: Ninguém Perguntou po Mim; 12º romance da Colecção Livros de António Mota, que tem todos os títulos incluídos no Plano Nacional de Leitura.

Sinopse: "A vida em Montepó continua a decorrer ao ritmo das estações do ano. Os gémeos já cresceram e são rapazinhos traquinas com comportamentos próprios da idade deles. Abílio e Ana Teresa sonham com vidas diferentes. Descobrem rapidamente que a vida nem sempre é fácil… Mas embora haja decisões difíceis de tomar, todos os sonhos continuam a ser possíveis. Abílio aprende também que “o conhecimento é a melhor ferramenta que podemos arranjar para sairmos airosamente da mediocridade”.
É uma história simples sobre a vida rural de uma família numa aldeia do Norte de Portugal, nos meados dos anos 60 do século XX. A escrita deste autor é comovente, na medida em que está habituado a escrever para jovens.
Nesta obra, reflectimos sobre a emigração dos anos 60 para países europeus... Ponderamos sobre o valor do amor entre jovens, do amor entre marido e mulher, do amor entre as pessoas de uma mesma família. Que importância tinha naquela época a família nuclear? Que papel tinham os avós sobre os filhos e netos? E hoje?
Achei muito interessante ser um romance que continua a história de outro livro já publicado Filhos de Montepó; e que tem como início, um e-mail de uma jovem que quer saber o resto da história...
Será isto verdade ou apenas mais um artífice da fantástica imaginação de António Mota?
Nota: 7/10

sexta-feira, 6 de março de 2009

Livraria Lello & Irmão... A magia do espaço

A Livraria Internacional de Ernesto Chardron foi fundada em 1869; hoje chama-se Livraria lello & Irmão e fica situada na Rua das Carmelitas, nº 144 no Porto.

A minha Amiga Susana foi a esta livraria, e conhecendo a minha paixão por livros, recomendou-me vivamente a visitar este espaço.


A verdade é que esta livraria é deslumbrante... Fantástica, mágica.!:O)

Será com certeza um dos meus destinos quando me deslocar ao Porto.


O melhor do mundo são as crianças


Hoje recebi um presente fascinante... Um Livro!

Miguel Xavier, foi nosso Amigo por uma semana; e esta está prestes a acabar... Muito se conversou sobre o ensino, muito se partilhou sobre educação.

Antes da despedida, espero que passageira, porque os amigos são para a vida; o Miguel ofereceu-me um livro intitulado O Melhor do Mundo são as Crianças de Manuela Nogueira; uma antologia de poemas e textos de Fernando Pessoa para a infância.


Muito Obrigado Miguel, pela partilha, pela dedicatória e até breve. (também em Fascínio das Palavras)

quarta-feira, 4 de março de 2009

As Cidades Invisíveis

A semana passada, a Canochinha fez um comentário sobre este livro e deu-lhe pontuação máxima; fiquei logo com vontade de o ler... ainda por cima já o tinha em casa.
Sinopse: "Marco Polo fala a Kublai Kan das cidades do Ocidente, maravilhando o imperador mongol com as suas descrições. Estas cidades, no entanto, existem apenas na imaginação do mercador veneziano: a sua vida encontra-se apenas dentro das suas palavras, uma narrativa capaz de criar mundos, mas que não tem forças para destruir «o inferno dos vivos». Este livro tem o lirismo dos livros de poemas, poemas que por vezes descrevem cidades e outras vezes a forma de pensar e de ser dos seus habitantes. Invertendo os papéis do Livro das Maravilhas, através do qual Marco Polo revelou o Oriente ao mundo ocidental, Calvino arquitectou o livro que o estabeleceria como uma das referências incontornáveis da literatura pós-moderna."

A leitura foi realmente rápida, Italo Calvino transporta-nos para outra realidade visto que a estrutura do livro segue um plano rigoroso. Os contos vão-se alternando segundo um esquema que define a estrutura de capítulos, cada um dos quais precedido e seguido de um dos fragmentos da conversa entre as duas personagens: Marco Polo e Kublai kan.
Nada disto é, naturalmente, por acaso. Italo Calvino, através deste artifício, constrói o seu livro como que armado de régua e esquadro, como um arquitecto a construir cidades. As cidades, em si, são fascinantes. Todas são descritas em uma ou duas páginas, e são todas exemplares, oníricas, surreais. Todavia, estão recheadas de uma riqueza tal que, várias vezes assalta o leitor a vontade de conhecê-las melhor, de ler romances inteiros passados nelas, de andar pelas suas ruas (quando têm ruas) ou viver nas suas casas (quando têm casas).
Ao ler este livro, relembrei-me dos contos As Mil e Uma Noites, em que Sherazade conta todos os dias uma história fantástica ao sultão; assim se parece Marco Polo em relação a Kublai Kan. Chega-se ao fim do livro ao mesmo tempo satisfeito e insatisfeito, querendo mais, mesmo com a consciência de que a maioria das cidades desabaria assim que se tentasse concretizá-las melhor. Só poderiam existir na imaginação... O humanismo e a carga poética de As Cidades Invisíveis marcam qualquer leitor com propensão à universos fantásticos. Uma audácia da literatura: fusão de conto, crónica, poesia, carta e diário.

(Imagem de Marco Polo a chegar ao palácio de Kublai Kan)

Nota: 9/10

segunda-feira, 2 de março de 2009

Lullaby, um hino ao mar, à compreensão

Jean-Marie Le Clézio, prémio Nobel da Literatura 2008, surpreendeu-me há poucos meses a propósito de uma pequena crónica, num dos nossos semanários.
Descobri alguém que é merecedor de um prémio de tal gabarito. E digo-o porque li Lullaby. O título é este, simplesmente. Lê-se de um fôlego, mas de quando em vez faz-nos pensar, faz-nos retroceder na leitura para apreciarmos a beleza do discurso, a sonoridade das palavras e o íntimo das personagens, que nos é apresentado sem darmos conta, subtilmente e de forma bem realista.

Esta menina, Lullaby, decidiu, um dia, não ir à escola, mas sim ir ver o mar. Ela sabia que isso lhe iria trazer muitos dissabores na escola e na família, claro. Mesmo assim a ânsia, a necessidade de estar perante o mar era mais forte. Durante alguns dias assim aconteceu. As delícias da contemplação, da descoberta, das recordações, da presença de um menino que a despertou para certos aspectos do mar e de uma casa abandonada, foram sequências descritivas que nos obrigam, nós leitores, a criar uma imagem idílica e de filme nostálgico, que nos envolve e nos fascina.

Reflectindo sobre toda a obra, Lullaby era alguém que necessitava de um amigo, de uma família e a escola nada lhe dizia. É no mar que ela descobre a luz, a evasão, o seu verdadeiro eu, o encontro consigo mesma. Aquela liberdade de pisar, molhar, olhar, saborear a maresia, escorregar pelas rochas e ... sonhar, era tudo o que ela desejava.
Mas era necessário regressar à escola. Quando aí chegou, a Directora não a compreendeu. Ameaçou-a, acusou-a de abandono dos estudos por causa de um namoradinho, sem dialogar, sem saber ouvir Lullaby. No entanto, é o seu professor Filippi, de Física, com quem ela tanto desejava falar, que a vai compreender, aceitar. Ao perguntar-lhe se tinha feito uma viagem, durante aqueles dias, ela diz-lhe que tinha ido ver o mar e tinha muitas questões a colocar-lhe. Ele concorda e conclui dizendo-lhe que também ele adorava o mar. Lullaby ficou na aula.
Este professor teve a resposta que ela esperava. O único que a compreendeu, que a ouviu e não a censurou. O mar foi o elemento de união, de compreensão.

Esta narrativa é um hino ao mar e à compreensão de que o mundo anda tão esquecido. Nos dias de hoje impera a incomunicação. Às vezes, basta uma palavra ou pequena expressão (um clic) para que todo o diálogo aconteça e tudo se solucione.

"Le plus important c'est la mer: elle recouvre, efface toute chose" (O mais importante é o mar: ele esconde, faz esquecer tudo) - é a frase com que termino e que consta da contracapa. A metáfora serve para todos nós.

Nota: Lullaby, em inglês signifiva canção de ninar. Não foi por acaso que Le Clézio escolheu este título. Lullaby, uma jovem que mais não desejava do que ouvir a bela canção do mar e deixar-se embalar, esquecer, deambular, tal como as mães fazem aos seus filhos para os adormecer. É lindo...

A mitologia do livro


Abaixo a leitura de livros...
Sou contra livros ler
Esse acto, jamais devia acontecer
Os livros deviam ser abertos
E as palavras saírem nos momentos certos
Deviam ser como pássaros voantes
Para serem do Homem amantes
Deviam ser cavalos galopantes
Colocando-as vivas, frescas, dominantes
Para ousarem ser presenciadas
E pelo Homem serem utilizadas
Sou contra os livros folhear
Pois esse acto, pode o leitor viciar
Mas…
Sou a favor do livro preservar
Para ele todos os dias nos apaixonar
Como o seu encanto e dedicação
Com a sua magia e paixão
Ao Homem se poder acorrentar
Para a nossa vida melhor colocar…
João Paulo S. Félix

Venenos de Deus, Remédios do Diabo

Sinopse: "O jovem médico português Sidónio Rosa, perdido de amores pela mulata moçambicana Deolinda, que conheceu em Lisboa num congresso médico, deslocou-se como cooperante para Moçambique em busca da sua amada. Em Vila Cacimba, onde encontra os pais dela, espera pacientemente que ela regresse do estágio que está a frequentar algures. Mas regressará ela algum dia? Entretanto vão-se-lhe revelando, por entre a névoa que a cobre, os segredos e mistérios, as histórias não contadas de Vila Cacimba – a família dos Sozinhos, Munda e Bartolomeu, o velho marinheiro, o administrador, Suacelência e a sua Esposinha, a Misteriosa mensageira do vestido cinzento espalhando as flores do esquecimento."

Quando comprei este livro foi essencialmente pela sua capa e pelo seu título controverso, não tinha lido nada que me despertasse a atenção para o adquirir.
Comprei-o simplesmente...

De início, achei a história estranha, demorei algumas páginas até entrar dentro do texto... mas a verdade é que em poucas horas li o romance todo.
A partir do meio do livro, os acontecimentos sucedem-se surpreendentemente. Não estavam certamente na minha lista de eventos possíveis ou plausíveis. Agradou-me sobretudo por esse aspecto, a imprevisibilidade que surge nos últimos capítulos. Existem para nós leitores assíduos, histórias que, com mais ou menos rigor conseguimos, sem desvalorizar nenhum livro, antecipar os factos ou as reacções das personagens.

Para quem quer ser surpreendido, leia este livro; não é um dos meus favoritos, não foi paixão, mas dou-lhe crédito por me ter surpreendido com uma história de amor deveras "estranha".
"Uma coisa aprendi na vida. Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz." p.35
"Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso." p. 113
"Talvez seja a espessura desse céu que faz os cacimbeiros sonharem tanto. Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco." p.155
Nota:8/10