quinta-feira, 30 de abril de 2009

À minha querida Mãe

O post de ontem foi para mim e para as minhas filhas... Este é para a minha Mãe, mas também para todas as mães dos leitores compulsivos, para todas as melhores mães do mundo; tão e simplesmente para todas as MÃES.

À minha querida Mãe
Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde nasci.
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa tinha sete anos quando dedicou esta quadra à Mãe.

Antecipando o "Dia da Mãe"

Comprei este livro com as minhas filhas, já há duas semanas...

Olhamos para ele religiosamente todos os dias... à espera do dia da Mãe.

Vai ser a nossa leitura nesse dia; antevejo interessantes conversas e cumplicidades.

Todos os dias são "dia da mãe" quando leio à noite com elas mas neste dia, vai ser ainda mais especial.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sapatos de Rebuçado

Sinopse: "Após ter abandonado a aldeia de Lansquenet-sur-Tannes, cenário de CHOCOLATE, Vianne Rocher procura refúgio e anonimato em Paris, onde, juntamente com as suas filhas Anouk e Rosette, vive uma vida pacífica, talvez até mesmo feliz, por cima da sua pequena loja de chocolates. Não há nada fora de comum que as destaque de todos os outros. A tempestade que caracterizava a sua vida parece ter acalmado... Pelo menos até ao momento em que Zozie de l’Alba, a mulher com sapatos de rebuçado, entra de rajada nas suas vidas e tudo começa a mudar…Mas esta nova amizade não é o que parece ser. Impiedosa, retorcida e sedutora, Zozie de l’Alba tem os seus próprios planos – planos que vão despedaçar o mundo delas. E com tudo o que ama em jogo, Yanne encontra-se perante uma escolha difícil: fugir, tal como fez tantas outras vezes, ou confrontar o seu pior inimigo… Ela própria."

Adquiri este livro na feira do livro do nosso colégio, seguindo o conselho de uma aluna que já o tinha lido... Não podia deixar de o levar após o óptimo comentário que fez.

A verdade é que já tinha lido outros romances de Joanne Harris, e sinceramente não foram os meus favoritos. Interessantes com histórias de vidas, no entanto os seus romances não têm propriamente uma escrita que me prenda demasiado.

Quando acabei este livro, fiquei duplamente satisfeita: primeiro por ter seguido o conselho de uma aluna muito jovem, confiando plenamente no seu gosto literário, segundo por ser o primeiro livro desta autora a surpreender-me totalmente.

Apreensiva no início, fui entrando na narrativa como se por "magia" e recomendo a sua leitura pela simplicidade da escrita, pelo enredo, pela fantasia, pela magia, pelos cheiros e pelas belíssimas descrições da cidade de Paris.

Uma historia diferente narrada sob o ponto de vista de três mulheres, todas especiais, todas com segredos, todas mulheres de armas perante as dificuldades da vida: três bruxas!

E os sapatos de rebuçado... vermelhos... lindos e o cheiro a chocolate quente, delicioso, sempre presente.


Nota: 8/10

domingo, 26 de abril de 2009

Firmin

Sinopse: "Nascido na cave da Pembroke Books, uma livraria da Boston dos anos 60, Firmin aprendeu a ler devorando as páginas de um livro. Mas uma ratazana culta é uma ratazana solitária. Marginalizado pela família, procura a amizade do seu herói, o livreiro, e de um escritor fracassado.À medida que Firmin desenvolve uma fome insaciável pelos livros, a sua emoção e os seus medos tornam- se humanos. É uma alma delicada presa num corpo de ratazana e essa é a sua tragédia.Num estilo ora sarcástico ora enternecedor, Firmin é uma história sobre a condição humana em que a paixão pela literatura, a solidão e a amizade, a imaginação e a realidade, fazem parte de um mundo que acarinhava os seus cinemas de reprise, os seus personagens únicos e a glória amarelada das suas livrarias. Firmin é divertido e trágico. Como todos nós."
Li este livro num abrir e fechar de olhos. Adorei.
"Uma história para todos aqueles que sentem paixão pelos livros e que não perderam a capacidade de amar".
Um livro indicado para todos nós, amigos e amantes de livros, de letras, de histórias...
Quando comecei a ler esta obra de Sam Savage, associei-o a outro livro lido há muito pouco tempo: O incrível rapaz que comia livros. Na verdade, em termos de mensagem são bastante idênticos; ambos se referem ao prazer de comer livros (literalmente) que se transforma no prazer de "ler", devorando (metaforicamente) livros.
É uma história de vida, que facilmente se transpõe para a vida de qualquer um de nós; somos seres solitários, que procuram o amor, a amizade, uma vida em sociedade... os livros fazem parte dessa vida que procuramos, são o nosso refúgio, são as nossas viagens, são as nossas aprendizagens!
Firmin, é uma ratazana com um aspecto "nojento"; mas achei-o delicioso depois de o conhecer... podia ser qualquer um de nós.
Uma fábula para adultos que adoram ler! :O)
Nota: 9/10

sábado, 25 de abril de 2009

Ainda sobre “Como um Romance” de Daniel Pennac

Adoro o livro “Como um Romance”, tal como todos os que conheço deste autor. Sou fã de Pennac. Ainda sobre o mesmo livro, gostaria de partilhar convosco algumas partes com as quais estabeleci um especial “diálogo” (sim, porque a competência literária permite ao leitor estabelecer diálogos com o texto…).

“É preciso ler, é preciso ler… E se em vez de exigir leitura o professor decidisse de repente partilhar o seu prazer de ler?” (p. 77). Concordo plenamente com esta sugestão do autor. Se, pelo uso do imperativo, não atingimos o nosso objectivo de levar os jovens a ler, então, enveredemos pela arte da sedução, contagiando-os com o prazer da leitura.

Mais à frente, quando Pennac se dedica ao 8º direito inalienável do leitor, “O direito de saltar de livro em livro (ou o direito de debicar)”, podemos reflectir sobre algumas considerações do pedagogo, neste âmbito. “Eu debico, nós debicamos, deixemo-los debicar. É a autorização que damos a nós próprios de retirar qualquer livro da nossa biblioteca, de o abrir onde nos apetecer e de mergulharmos nele por um instante, porque só dispomos desse instante. (…) Assim podemos abrir Proust, Shakespeare ou a Correspondência de Raymond Chandler, em qualquer página, “debicar” aqui e ali sem correr o mínimo risco de decepção.

Quando não se tem tempo nem os meios para passar uma semana em Veneza, porquê recusar o direito de lá passar cinco minutos?” (p. 161). Subscrevo inteiramente estas opiniões, pois, tal como Pennac, também considero que mais vale ler durante alguns momentos e conhecer um pouco de alguns autores/livros do que não ler/conhecer nada. Além do mais, creio que é neste “debicar” que nós encontramos as “nossas” leituras, os “ nossos” autores, os “nossos” temas preferidos, a nossa identidade literária.

E vou terminar com uma passagem que se refere à importância e à delicadeza do acto de ler em voz alta, sendo um alerta para quem o realiza. “O homem que lê em voz alta expõe-se em absoluto. Se ele não sabe o que está a ler, é ignorante no que diz, é uma lástima, e isso ouve-se.
Se se recusa a habitar a sua leitura, as palavras mantêm-se letras mortas, e isso sente-se. (…) O homem que lê em voz alta expõe-se totalmente aos olhos que o escutam.
Se ele lê verdadeiramente, se nessa leitura coloca o seu saber dominando o seu prazer, se a leitura é um acto de simpatia tanto para com o auditório como para com o texto e o seu autor, se consegue dar a entender a necessidade de escrever acordando a nossa mais obscura necessidade de compreender, então os livros abrem-se por completo, e a multidão dos que se julgavam excluídos da leitura, mergulham nela atrás dele.”

Que levemos muitos atrás de nós, a mergulhar na leitura!
Lídia Valadares

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Três pequenas histórias

Umberto Eco é um autor genial, quer para adultos, quer para crianças. Foi ao folhear um livro dele numa livraria, destinado a crianças, que resolvi adquiri-lo, e não estou nada arrependida.

Chama-se a obra "Três Pequenas Histórias", publicada pela editora Caderno, reunidas para ilustrar que alguém tão atento à filosofia, à sociologia, ao mundo, consegue entrar no mundo das crianças.

São apenas três histórias, mas dizem muito e dizem tudo sobre a natureza do ser humano. Elas tocam em temas do quotidiano, partindo de desenhos e de segmentos das histórias que colocam as crianças motivadas até ao fim da sua leitura.

As temáticas são a guerra, em "A bomba e o general", a par do desejo desmesurado daqueles que, para terem protagonismo, decidem construir bombas para lançarem sobre as cidades. Mas o general acaba por aprender uma lição, quando as pessoas e as crianças fazem nascer flores a partir dessa bombas. É assim que o general deixa de ser importante. Uma lição para os poderosos e para aqueles que acham que o mundo é apenas deles.

Na segunda história, "Os três cosmonautas", aborda-se a temática da xenofobia, da interculturalidade. Apesar do encontro dos cosmonautas de nacionalidades diferentes com os marcianos no espaço e não conhecerem as línguas, tudo fica resolvido, mesmo quando os gostos são diferentes, os aspectos, os hábitos, etc... No final o narrador conclui: "Tinham compreendido que na Terra, como nos outros planetas, cada um tem o seu próprio gosto, é apenas uma questão de se aceitarem as diferenças"(p.74). Mas é uma história que pode ser uma motivação para as actividades do Ano Internacional da Astronomia. Ensina e nutre o gosto pelo espaço, pelo universo. Fascina!

Na terceira história, "Os GnOMos De gNU", surge o problema da poluição da Terra criticada pelos gnomos e uma crítica aos responsáveis dos países que não querem ver o que se passa à sua volta. Reparem: "E enquanto falava, o ministro escorregou numa pastilha elástica que um outro ministro tinha cuspido para o chão. Partiu as pernas, esmagou os lábios, o queixo, as duas narinas, o ombro, a testa e ficaram-lhe os dedos presos nas orelhas, de tal maneira que não conseguia endireitar-se. Na grande confusão que se seguiu, o ministro foi deitado no passeio no meio dos sacos de imundície que já ninguém recolhia há muito tempo, e ficou ali a encher-se de fumo, respirando as exalações que saíam dos escapes das máquinas" (p. 108). Vão ser os gnomos que irão resolver a situação e dar sugestões aos humanos para resolverem os problemas ambientais.

É uma obra que é essencialmente pedagógica, transmite ideias e conceitos bem actuais, a explorar em várias áreas e consegue provocar o diálogo, pois põe os alunos a reflectir, a trocar ideias e lança desafios. É assim que nasce a verdadeira cidadania.

Umberto Eco é apelidado de "fabricante de palavras" pela sua faceta de contista, acompanhado por desenhos de um pintor, Eugenio Carmi, um "fabricante de imagens". Quem ler o livro irá ser, com toda a certeza, um "fabricante de mentes sãs".

Isilda Lourenço Afonso

Histórias escritas na cara - Cada avó é um livro de contos

Este é um livro que nos fala de histórias de vida que o tempo vai deixando gravadas nos rostos de cada um, das valiosas bibliotecas que são as avós, tantos são os livros que as páginas das suas vidas já escreveram e que estão prontos para ser lidos, contados, ouvidos…
Começa por nos contar que, duas vezes por ano, Clara e os pais iam para casa da avó materna, no Sul do país, num lugar com o nome curioso de Suspiros. “Clara mal conseguia controlar a emoção, sabia que quando regressasse de Suspiros ia sentir-se como se tivesse uma biblioteca dentro da cabeça, tantas eram as páginas da vida que a avó lhe contava”(p. 12).

Uma das histórias que Clara nunca se cansava de ouvir era a do nome da aldeia, para a qual havia duas versões. “Mas as histórias que Clara mais gostava de ouvir eram daquelas que estavam escritas no rosto da avó: por curtas ou compridas linhas junto aos olhos, perto da boca ou na testa…” (p.16) Gostava de ouvir a origem daquelas marcas que falavam de emoções, sentimentos, memórias agradáveis ou desagradáveis, alegres ou tristes…

Eu também gostei! São episódios breves, mas fascinantes. Daqueles que dizem mais pelas reflexões do que pelas palavras. Tocou-me, especialmente, o episódio associado à ruga na testa da avó. Porquê? Talvez porque, como disse Stendhal, “Um romance é como o arco de um violino, a caixa de ressonância é a alma do leitor.” E esta ruga fez vibrar intensamente a minha caixa de ressonância. Aquela ruga chamava-se Ernesto e falava de um terramoto que tinha havido no dia em que a avó fazia doze anos e a família, em vez da festa de “Parabéns”, começara a organizar meios para ajudar os mais afectados. A avó e as primas gémeas tinham ficado responsáveis por arranjar roupa, muitos tinham ficado, apenas, com a que traziam no corpo. “O frio estava a chegar e depois de o chão ter tremido iam tremer muitos dentes.” (p.23). O ajudante deste grupo era o Ernesto, um rapaz de nove anos, extremamente pobre. Incansável, sem nunca desistir, batia à porta das casas que ainda existiam e pedia mantas, casacos, calças, sapatos… (Quanta persistência, força, sensibilidade e solidariedade se descobre nos menos favorecidos!) Mas não havia roupa nem calçado suficiente para tanta gente, porém Ernesto não desanimava e dizia: “Menina, pé de pobre não tem número. E pobre não troca de roupa, a roupa é que troca de pobre. Vai primeiro para o irmão pobre, depois para o primo pobre, depois para o neto pobre, e assim por diante, até a roupa já não perceber se nasceu camisola ou cachecol”. E no meio daquela pobreza, o franzino Ernesto, sem nunca saber, ensinou-me uma lição valiosa: nós temos quase sempre mais do que aquilo de que precisamos.” E este excerto provocou em mim uma ressonância tão aguda que quase me magoava a alma, tal era a verdade que ecoava em vibrações prolongadas.

Mais à frente, uma expressão deixou-me deliciada pela criatividade e beleza estilística, fiquei a saboreá-la durante muito tempo e não resisto em partilhá-la convosco: “A Antonieta devia ter uns cinco anos, ainda não era cega e nunca mais me esqueço do seu comentário, um dia enquanto o Sol se punha: Já viste, mana, o Sol adormece no mar e as ondas são os cobertores.”

Outras rugas contaram as suas histórias e, no final, depois de fechar o livro, já sem palavras à frente dos olhos, continuei a ler histórias, aquelas cujo enredo brota das nossas meditações, das nossas vivências, das nossas conclusões, das nossas próprias rugas…

É um livro pequeno, escrito numa linguagem singela, mas bonita, que nos conta episódios curtos, de absorção fácil e rápida, contudo deixa-nos muito tempo a prolongar a leitura, a ouvir o eco, as vibrações das suas palavras…

Vou deixar-vos com um desses ecos.
“Cada avó é um livro de contos”.
Lídia Valadares

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Dia Mundial do Livro: Ler é Prazer

«O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo “amar”...»

Daniel Pennac, Comme un Roman

"Un livre à lire absolument, pour le contenu, pour le style de Pennac, pour tout. Plaisir garanti ! Et en finir avec la mauvaise conscience du lecteur qui lit par obligation un livre qu'il n'aime pas ! Si le livre nous tombe des mains, eh bien, laissons le tomber tout simplement !!! Ah quelle maxime ! Comment n'y a-t-on pas pensé soi-même. Lire est un plaisir, et dès qu'on le découvre, on aime lire. C'est si simple, si évident ! Et tant pis pour la culture (??) c'est là encore le bonheur qui nous guide ! Merci monsieur Pennac !!!"

terça-feira, 21 de abril de 2009

Reflexão

"Somos aquilo que fazemos consistentemente. Assim, a excelência não é um acto, mas sim um hábito."
Aristóteles

Esta citação do filósofo grego Aristóteles anda a perseguir-me há alguns dias em vários documentos que ando a ler...

Tenho de a partilhar com os nossos amigos da Floresta; só assim irei perceber qual o motivo de aparecer tantas vezes nestes últimos dias.

:O)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Gato e o Escuro

É um livro fascinante, bem ao jeito de Mia Couto, inventor e artífice de palavras, explorador de sonhos, autor de uma escrita criativa, dono de um estilo muito próprio, que dá ao texto um sabor fantástico. “O Gato e o Escuro” atesta a originalidade e o poder criativo deste autor e delicia-nos com a sua maneira singular de contar histórias. Este conto, normalmente orientado para um público infanto-juvenil (eu diria para todas as idades), fala-nos de um gato amarelo, às malhas e às pintas, o Pintalgato, que, um dia, ficou completamente preto, pagando, assim, o preço da desobediência. Ora, Mia Couto conta-nos essa “trespassagem” de uma forma fantástica, ou não fosse o onírico, o sonho, uma constante na obra miacoutiana. Leia-se, a este propósito, um livro excelente sobre a obra deste autor, intitulado “O Fantástico nos contos de Mia Couto”, de António Martins, Papiro Editora, que nos proporciona um profundo e saboroso conhecimento deste autor moçambicano. Mas, como dizia, esse gatinho adorava passear na “linha onde o dia faz fronteira com a noite”. Embora sua mãe, receosa, lhe dissesse que nunca atravessasse para o lado de lá, “além do pôr de algum Sol” (repare-se na beleza desta metáfora que simboliza o desconhecido, o perigo), ele fingia obediência, mas a tentação era grande… “Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam”. Achei esta expressão transcrita fabulosa, pela ponte que estabelece com as nossas vivências e pelo potencial semântico que os verbos encerram. Quem não se sente atraído por namorar o interdito? Quem não sofre as consequências de cair nas teias da desobediência? E atentem na carga expressiva e capacidade fotográfica do vocábulo “pirilampiscavam”. A sensação visual é poderosa, única!

O gatinho foi ganhando mais confiança e coragem e, um dia, não resistindo à atracção, passou para o lado de lá, “onde a noite se enrosca a dormir”. Quando “ousou despersianar os olhos” (notem como esta expressão empobrece o sentido da sinónima “abrir os olhos”) e viu que tudo era preto, inclusive ele, desatou a chorar, aflito e amargurado. Depois de um encantador diálogo entre o gatinho e o escuro, que mais parecia um desfile de queixas sobre as suas sortes e condições, apareceu a mãe do gatinho. O escuro lamentou-se que era feio e que todos os meninos tinham medo dele. A Dona Gata consolou-o, argumentando que os meninos não sabiam que “o escuro só existe é dentro de nós”. “Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos.” “Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos” – diz a gata ao escuro. Este diálogo encantador, construído de uma forma aparentemente singela, ilusoriamente pueril, mas incontestavelmente soberba, conduz-nos a um inevitável exercício de introspecção. Este momento magnífico tem o condão de nos fazer dialogar com as nossas vivências, de nos fazer reflectir e ler o mundo!

Continuem a ler o conto e deliciem-se com a beleza das personificações, a excelência das metáforas, a criatividade dos neologismos, a singularidade da escrita e a arte que está presente ao longo de todo o texto…

E vou terminar este comentário, partilhando convosco algumas reflexões que um artigo da revista “Notícias magazine”, de 19 de Abril, 2009, intitulado “O livreiro que queria ser pirata”, de Fernanda Pratas, me suscitou. Tinha como base uma entrevista realizada a Pep Duran, catalão, com 64 anos, formado em engenharia electrónica, mas que se tinha feito livreiro, terapeuta e contador de histórias. Tinha-se especializado em ler álbuns ilustrados ao público infantil e também aos adultos. Considera este entrevistado que “As palavras lidas, ou contadas, esclarecem o nosso viver o mundo”. E é na qualidade de livreiro que afirma que “cada pessoa encontra os seus próprios livros”. Contudo, também pensa que, num universo de tantos, nem sempre é fácil descobrir os que nos interessam e, ao livreiro, compete acompanhar cada leitor nessa descoberta.

Pois eu penso que também nós, professores, pais, podemos desempenhar um papel muito importante no acompanhamento dos nossos alunos/filhos, no âmbito dessa descoberta.
E, já agora, seria interessante reflectirmos sobre aquilo que nos leva a encontrar os nossos próprios livros. Creio que pode haver múltiplas razões: comentários, apreciações, críticas, partilhas, recomendações…

No caso de Mia Couto, quem me seduziu para a leitura deste escritor foi o colega e amigo António Martins, já atrás referenciado, que em muito contribuiu para a minha descoberta e apreço deste autor. Também não posso deixar de mencionar a colega e amiga Isilda Afonso, que me deu a conhecer “Os sete sapatos sujos”que Mia Couto, numa magnífica intervenção no ISCTEM, considerou que precisávamos de descalçar à soleira da porta da modernidade. Segundo o mesmo afirmou, escolheu sete, pois é um número mágico, mas haveria muitos mais. Numa belíssima metáfora, Mia Couto refere-se aos defeitos, às vicissitudes, aos preconceitos da época actual e à urgência de os deixar à porta, de mudar de atitude, para se conquistar uma condição melhor. Aqui e mais uma vez, não esqueceu a realidade africana, a visão crítica para dentro do seu país. Vou deixar-vos com algumas expressões que seleccionei, da parte final da sua intervenção, e que julgo serem um bom mote de reflexão:

“A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós.” (…) “Teremos mais e mais orgulho em sermos quem somos: moçambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os sete mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva.” (Mia Couto, Oração de Sapiência, na abertura do ano lectivo no ISCTEM)

Lídia Valadares

domingo, 19 de abril de 2009

"Esperando o Sucesso": um quadro bem actual


Fui fazer uma visita de estudo com alunos do 3º ciclo, ao Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, para lhes dar a conhecer as obras notáveis que aí existem e que tanto representam o que de bom Portugal produziu e vai produzindo.

Fiquei encantada com os quadros, os pintores, as esculturas, as faianças, a ourivesaria e tantos outros aspectos que não vêm agora ao caso.

Ora, numa das salas, pude observar os trabalhos de um pintor para mim totalmente desconhecido, mas que me chamou a atenção. Ninguém deu por isso, mas comentei com a colega de História que aquele quadro que representava um menino com um desenho na mão, bem ao estilo infantil, simples, esquelético e apenas com uns traços representativos de um ser humano deveria significar algo. Fiquei intrigada e tentei documentar-me, já em casa, sobre este pintor e o quadro.

O pintor, Henrique Pousão e o quadro tinha o título de "Esperando o Sucesso". Logo este título me espevitou o olhar e a observação mais aturada.

É assim que nasce a investigação: da curiosidade. Ainda bem. Fiquei a gostar ainda mais.

"Esperando o Sucesso", obra realizada em Roma, em 1882, representa o interior do ateliê do pintor onde o modelo, uma figura popular de rapazinho romano, num momento de pausa da função de posar, exibe um desenho infantil. Ao fundo, vê-se uma representação imediata, primitiva ou inocente de um corpo humano.

Esta pintura, de 1882, é bem actual. Na minha opinião, é do desejo de alcançar o sucesso que tudo progride (desde que não seja nada de exagero e de atropelos a ninguém). Nada melhor para os nossos alunos e jovens observarem e reflectirem. Não basta esperar, é preciso agir e deitar mãos à obra, ou seja, estudar, trabalhar, esforçar-se para ter um dia o almejado sucesso. Não foi por acaso que Henrique Pousão, nascido a 1 de Janeiro de 1858, pintou este menino. Era ele próprio; o semblante envergonhado e o desenho que exibe querem transmitir-nos essa ideia: "eu vou conseguir ser um talento, desejo-o e estou a trabalhar para isso".

Este génio da nossa pintura, morreu muito jovem, apenas com 25 anos. Possui muitos outros e venho a descobrir que o meu gosto por este quadro tinha a sua razão de ser. Não sou só eu que o aprecio. Há muitos críticos e estudiosos de arte que o têm feito e este é o ano em que se estão a festejar os 150 anos do nascimento deste pintor, natural de Vila Viçosa.

Convido-vos a visitar a exposição deste pintor até ao dia 18 de Junho no Museu Soares dos Reis e, com toda a certeza, irão descobrir outros quadros bem expressivos e com aspectos interessantes da vida e das gentes portuguesas. Vale a pena apreciar e reflectir no porquê dos temas, das cores, das formas e dos pormenores. A arte ensina, educa e aproxima-nos. O sentido estético também se educa e não é efémero.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Fantástico nos Contos de Mia Couto

As nossas queridas Amigas, Lídia e Isilda fizeram mais uma apresentação.
Sei que foi "fantástica"...

Já tenho o livro, prometo que vou ler.
Parabéns ao colega António Martins que no passado dia 28 de Março fez a apresentação pública do livro O Fantástico nos Contos de Mia Couto, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lamego.

A obra O Fantástico nos Contos de Mia Couto possibilita o elo entre o real e o imaginário e impulsiona o conhecimento a horizontes culturais diversificados.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada

Como já sabem, não sou especialmente fã de poesia, a não ser que seja realmente de muito boa qualidade. Normalmente, só adquiro livros de poesia quando me são recomendados... e por pessoas em quem confio plenamente nos gostos literários.

Foi o que aconteceu com é um livro de poesia de Pablo Neruda, Vinte poemas de Amor e Uma Canção Desesperada; "onde se cruza o erotismo da poesia que celebra o corpo da mulher, com o gosto que Neruda tem pela natureza. Nestes poemas, é frequente que os dois planos se cruzem, havendo uma certa identificação entre o corpo feminino e o mundo natural (as paisagens, a terra...). Pablo Neruda escreveu estes poemas apenas com cerca de vinte anos, mas são alguns dos mais celebrados da sua obra." in wikipedia
Fiquei realmente surpreendida pela positiva, o livro que adquiri é bilingue, tendo o poema original em espanhol e o poema traduzido em português. A escrita deste poeta é surpreendente e fiquei muito satisfeita por me terem aberto mais este horizonte.
Corpo de Mulher
(Poema nº 1)
Corpo de mulher,brancas colinas,
coxas brancas,
assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega.
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.
Fui só como um túnel.
De mim fugiam os pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.
Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah, os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.
Recomendo também, tal como o fizeram comigo, "Uma Canção Desesperada".
LINDO :o)
É uma óptima obra para se ir lendo devagar, aprendendo assim a decifrar cada um dos poemas de Pablo Neruda.
Nota: 9/10

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Comer, Orar, Amar

Sinopse: "Elizabeth Gilbert estava com quase trinta anos e tinha tudo o que qualquer mulher poderia querer: um marido apaixonado, uma casa espaçosa que acabara de comprar, o projeto de ter filhos e uma carreira de sucesso. Mas em vez de sentir-se feliz e realizada, sentia-se confusa, triste e em pânico.
Enfrentou um divórcio, uma depressão debilitante e outro amor fracassado. Até que decidiu tomar uma decisão radical: livrou-se de todos os bens materiais, demitiu-se do emprego, e partiu para uma viagem de um ano pelo mundo - sozinha. Comer, Rezar, Amar é a envolvente crônica desse ano. O objetivo de Gilbert era visitar três lugares onde pudesse examinar aspectos de sua própria natureza, tendo como cenário uma cultura que, tradicionalmente, fosse especialista em cada um deles. "Assim, quis explorar a arte do prazer na Itália, a arte da devoção na Índia, e, na Indonésia, a arte de equilibrar as duas coisas", explica.

Em Roma, estudou gastronomia, aprendeu a falar italiano e engordou os onze quilos mais felizes de sua vida. Na Índia dedicou-se à exploração espiritual e, com a ajuda de uma guru indiana e de um caubói texano surpreendentemente sábio, viajou durante quatro meses. Já em Bali, exercitou o equilíbrio entre o prazer mundano e a transcendência divina. Tornou-se discípula de um velho xamã, e também se apaixonou da melhor maneira possível: inesperadamente.

Escrito com ironia, humor e inteligência, o best seller de Elizabeth Gilbert é um relato sobre a importância de assumir a responsabilidade pelo próprio contentamento e parar de viver conforme os ideais da sociedade. É um livro para qualquer um que já tenha se sentido perdido, ou pensado que deveria existir um caminho diferente, e melhor."
Não foi o melhor livro que li este ano, aliás, comecei a ler... larguei-o, li outros entretanto, mas depois algo despertou a minha atenção e acabei-o num instante.
A verdade é que a primeira parte que se refere à acção que se desenrola em Itália - " comer" - foi para mim, demasiada morosa. A segunda parte, na Índia - "orar" - foi muito mais interessante e aliciante assim como a terceira parte da obra - "amar" - temos direito a um amante, falante da língua lusa.
Não é um romance com acções que nos prendem uma atrás das outras, todavia é de leitura agradável e simples. Acho que esta auto-biografia deve ser saboreada naqueles momentos em que a nossa "Alma" pede umas leituras mais leves, sem grandes intrigas e sem grandes enredos.
Nota: 7/10

domingo, 12 de abril de 2009

O Incrível Rapaz que comia Livros

Sinopse: "Esta é a história de um rapaz com um apetite insaciável... por livros. Um dia, assim por acaso, o Henrique descobre esta estranha paixão, que se transforma numa mania constante e deliciosa! E eis a parte melhor: quanto mais livros devora, mais esperto fica. O Henrique sonha tornar-se na pessoa mais esperta do mundo. Até que percebe os malefícios deste hábito peculiar.... Já não consegue digerir bem, as coisas que aprendeu começam a ficar todas baralhadas e tem de parar."

Este fim de semana, dedicamos os nossos tempos livres a leituras e mais leituras... Até compramos mais livros (suicídio total: eu e as princesas numa livraria) em vez de comprar as tradicionais amêndoas e os grandes ovos da Páscoa.
Lemos este livro muito rapidamente, analisamos cada folha na medida em que tem ilustrações deveras interessantes e um contra-capa deliciosa, como podem ver (o nosso incrível rapaz continua a dar trincas em alguns exemplares).

É uma história engraçada, que incentiva os mais novos a ganharem o gosto pelos livros; não literalmente... gosto de "gostar de comer" mas sim gosto em aprender o que eles de mais precioso contém.
Divertido, simples mas de óptima qualidade, esta obra ganhou o prémio de Melhor Livro Infantil em 2007 atribuído pelo Irish Book Awards.
Nota: 7/10