domingo, 30 de agosto de 2009

La Goutte d'Or - símbolo do efémero

A leitura deste romance de Tournier é de carácter mais metafísico, filosófico e antropológico, características que nem sempre são do agrado dos leitores que buscam nos livros matéria para fruição ou simplesmente para descoberta de valores e sentimentos de personagens. Não é um livro de compreensão e interpretação fáceis, pois obriga-nos a constantes apelos à nossa enciclopédia dos tempos académicos, em que as discussões sobre temas transcendentes e pouco claros eram acaloradas e sem quaisquer conclusões. Mas aquilo que lemos também deve, muitas vezes, surpreender-nos e dar-nos outras visões, outras formas de ver o mundo, seguindo o olhar do narrador e articulando com conceitos que nem sempre são abstractos, à primeira vista.

O título do romance, La Goutte d’Or, joga com a polissemia: designa uma rua do bairro árabe em Paris (e assim terá um carácter mais antropológico) onde sobressaem os ritos de uma tribo do Sahra, imigrantes em França; por outro lado, representa a mulher de uma forma singular - loura ou morena, mãe ou prostituta, mas sempre com a dicotomia da maldição ou da sorte; neste romance a “gota de ouro” é uma jóia que encarna a tradição dos saharianos. É uma jóia do oásis que pertencia à bailarina Zett Zobeida, constituindo um valor de antídoto em relação à fotografia perdida de Idriss, que foi tirada, à socapa, por uma turista loura.
Resumindo: “Donne-moi la photo.”, frase pronunciada por Idriss quando guardava as suas cabras e ovelhas nas imediações do oásis de Tabelbala. Nesse momento um Land Rover surgiu e uma mulher loura tirou uma fotografia ao jovem pastor sahariano. Ela promete enviar-lha logo que chegue a Paris. Idriss esperou em vão. A sua imagem (que na sua crença lhe foi roubada) nunca lhe foi restituída. Mais tarde, quando ele parte para a Europa e vai até Paris em busca de trabalho, sentir-se-á obcecado (como alguém que imagina uma outra vida dupla de si próprio) pelas imagens que vai criando e que não consegue reconhecer-se como figura central das situações que acontecem. Perdido num “palácio de miragens”, acaba por cair no ridículo até se encontrar com a necessidade de escrever (a sua libertação).
Apenas o signo abstracto (o da escrita) o libertará da tirania da imagem, ópio da civilização ocidental.
Um romance sobre a nocividade da imagem e da fotografia. Escrito por volta de 1986 a propósito dos costumes e crenças dos magrebinos, mas actualíssimo quanto à mensagem que encerra na sua polissemia e constante sentido metafórico. Retrata os valores da sociedade contemporânea em que o “culto do eu” impera, mas a nada conduz. Aconselho, mas com alguma prudência, devido às partes mais descritivas e filosóficas das situações que são apresentadas, obrigando o leitor a uma releitura constante para conseguir entrar no âmago daquilo que o narrador pretende transmitir-nos.

A propósito desta obra, descobri que goutte d'or poderá ser, também, uma espécie de figo (desta época), uma planta que dá flores que pendem em cacho e a tão cobiçada jóia da trama do romance de Tournier (como eu gostaria de uma assim, ih, ih, ih!...)



Terminamos as férias com "gotinhas de ouro". Mas este é um ouro que não irá "ofuscar-nos". A nossa comunidade de leitores é de ouro! Temos partilhado e iremos continuar a partilhar. Nós estamos constantemente a descobrir pequeninas pepitas de ouro (a cultura). Não concordam comigo?
Bom regresso e... até breve.
Isilda Lourenço Afonso

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Olá, um bem-haja para todos.

Gostaria de vos recomendar este livro, sobretudo para aqueles que gostam da temática da segunda grande guerra mundial.

É fantástico.

Sinopse: "Este é o primeiro volume de uma trilogia marcada pelo holocausto nazi (Vol. II - A Recusa). Sem Destino é o primeiro romance escrito por Imre Kertész, publicado em 1975, baseado nas experiências nos campos de extermínio. Kertész recebeu inúmeros prémios ao longo da sua carreira literária, entre eles o Prémio Nobel da Literatura 2002. Este livro é considerado um dos melhores romances jamais escritos sobre o holocausto e uma das melhores obras europeias da segunda metade do século XX, precisamente porque, sem recorrer a um tom moralizante, nos oferece a perspectiva do fascínio de um jovem perante a extraordinária mobilização e organização dos campos."

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O Tigre Branco

Sinopse: "O Tigre Branco arrebatou por unanimidade o Man Prémio Booker Prize de 2008, um dos mais prestigiados galardões literários a nível mundial. Ainda antes da sua nomeação para o prémio, era já apontado como um dos melhores romances do ano e Aravind Adiga como uma grande revelação e um extraordinário romancista. Romance de estreia, entrou de imediato nas preferências dos críticos, que o classificaram como "uma estreia brilhante e extraordinária". O livro revela uma Índia ainda muito pouco explorada pela ficção, a Índia negra, violenta e exuberante das desigualdades socioculturais. Toda a obra é uma longa carta dirigida ao primeiro-ministro chinês, escrita ao longo de sete noites. O autor da carta apresenta-se como o tigre branco do título, e auto-denomina-se um "empreendedor social". Descrevendo a sua notável ascensão de pobre aldeão a empresário e empreendedor social, o autor da carta, Balram, acaba por fazer uma denúncia mordaz das injustiças e peculiaridades da sociedade indiana. Fica assim feito o retrato de uma sociedade brutal, impiedosa, em que as injustiças se perpetuam geração após geração, como uma ladainha que se entoa incessantemente ao ritmo de uma roda de orações. São muito poucos os animais que conseguem abrir um buraco na vedação e escapar ao destino do cárcere eterno. O Tigre Branco é um deles."

Quando começo a ler um livro que ganhou algum prémio literário, normalmente inicio cheia de cepticismo. Nunca sei muito bem o que esperar… por vezes acontece serem livros que nada têm a ver com os meus gostos literárias e como tal, fico bastante desiludida.

O Tigre Branco foi surpreendentemente uma leitura agradável e enriquecedora.

O autor, Aravind Adiga, numa escrita simples e descritiva, sem ser maçadora, envolve o leitor em ironia, numa viagem até à Índia.

A personagem principal, através de umas cartas, descreve o seu caminhar, desde a sua tenra infância até à idade adulta, facultando-nos o seu olhar sobre um país, longe de ser exótico e idílico mas sim, selvagem, violento e duro.

Irónico que baste, a personagem principal consegue “evoluir na vida” à custa de muito sofrimento, falando-nos de corrupção e dos vícios existentes numa comunidade de castas, que é a Índia.

Um retrato invulgar e corajoso de uma “Índia” em constante busca do progresso: um país em evolução, cheio de conflitos internos.

sábado, 18 de julho de 2009

No Coração das Emoções das Crianças

Sinopse: "Na sociedade actual, e mais ainda na de amanhã, o caminho do sucesso passa pela confiança e pela sua facilidade relacional. As aptidões para comunicar e a capacidade de dominar as emoções tornaram-se pelo menos tão importantes quanto as competências técnicas. Para se ter êxito, quer na vida pessoal quer na profissional, possuir a inteligência do coração é mais fundamental do que nunca. Alimentar o quociente de inteligência das nossas crianças é insuficiente. Nós devemos preocupar-nos com o seu quociente emocional. E não nos podemos esquecer de que muitas das dificuldades intelectuais e escolares são provocadas por bloqueios emocionais. Eis um livro muito concreto que, indo buscar os seus exemplos ao quotidiano, ajudá-lo-á a acompanhar o seu filho em direcção à autonomia, a reencontrar a sua própria infância e a caminhar para uma maior harmonia familiar."
Adorei, adorei, adorei!

Não é nenhum romance.
Não tem receitas mágicas.
Não promete soluções fáceis.
Não apresenta ideias pré-concebidas sobre crianças e jovens!
De leitura fácil e rápida, visto ser ternamente envolvente, este livro que já existe traduzida na língua de Camões, na editora Pergaminho No Coração das Emoções das Crianças, é da autoria da psicoterapeuta Isabelle Filliozat.
O trabalho com as crianças, no dia-a-dia é complexo, ainda mais quando se trata dos nossos filhos; não existem remédios fáceis ou milagrosos para certos conflitos ou fracassos... isto já nós sabemos... e este livro confirma-o!
Cada criança é um caso, e cada situação deve ser tratada de forma única e resolvida pelos agentes /actores envolvidos (entenda-se por agentes /actores: as crianças, os jovens, os pais, os educadores ou os professores).
Não é um livro com respostas certas ou erradas... e muito menos concretas, é mais uma análise sobre possíveis caminhos a seguir segundo as diversas situações...
Uma obra de referência na área da psicologia e da educação; para todos os adultos, sejam eles pais, professores... e outros!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Pobby e Dingan

Sinopse:

"Livro recomendado no programa de português do 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade III
É a primeira obra de Ben Rice (n. 1972, Inglaterra), publicada inicialmente numa revista australiana, e que tem recebido as críticas mais elogiosas. A história passa-se numa pequena povoação mineira da Nova Gales do Sul, Austrália, e é contada por Ashmol, filho de um mineiro em busca de opalas, irmão de Kellyanne, que tem dois amigos imaginários, Pobby e Dingan, que dão o título ao livro. Kellyanne é, claro, a única que "vê" estes seus amigos imaginários, mas a família, e mais tarde toda a população, alimenta esta sua fantasia; a mãe chega a colocar mais dois pratos na mesa, para aqueles amigos "mais calmos e mais bem comportados que os filhos". Mas os problemas chegam quando os amigos imaginários se perdem e o pai é acusado de roubar. Então Ashmol coloca toda a sua força e inteligência para trazer Pobby e Dingan de volta e convence a população a ajudá-los."

"... um livro surpreendente, uma pequena jóia. Um daqueles livros que oferecemos às pessoas de quem gostamos, porque depois de lê-lo apetece partilhá-lo."
José Luís Peixoto, DNA
Apetece partilhá-lo (retomando as palavras de José luís Peixoto) ... pois foi o que fizeram as nossas queridas amigas do blogue Sombra dos Livros, a Alice e a Bailarina; às quais agradeço do fundo do coração, esta linda e maravilhosa oferta.
Sou sincera, não conhecia de todo o livro ou o autor, mas vindo de duas leitoras assíduas, só podia ser realmente bom.
Li o livro de uma só vez, é pequeno mas com uma escrita rica e envolvente, que nos leva para um mundo diferente que os adultos já há muito esqueceram ... o mundo da imaginação e da fantasia. Achei simplesmente divinal o facto do autor colocar uma aldeia inteira (e aqui falamos de adultos) a viver o sonho e a fantasia de uma pequena criança, Kellyanne, com o objectivo de a salvar.
Comovente, com um final fabuloso mas também bastante doloroso, é uma pequena GRANDE obra que nos relembra que um dia também já fomos crianças.
"Depois de muito pensar escolhemos este pequeno grande livro pois poderás lê-lo com as tuas pequenitas, coisa que sabemos que te dá muito prazer. Espero que gostes (e que seja uma novidade) e que te marque tanto como nos marcou a nós."
Dedicatória de Alice e de Bailarina
Muito obrigado às duas :O)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

N'oublie pas d'être heureuse

Sinopse: "Ma mère disait : « N’oublie pas ton chapeau. » Mon père disait : « N’oublie pas d’être heureuse ». J’entends encore leurs voix portées par une conviction si simple qu’elles n’appelaient aucun commentaire. Comme s’ils pressentaient à quels dangers je pourrais m’exposer…
Dans ce roman très singulier où l’on passe des lieux d’enfance, de lumière, de rêves et de liberté au monde très codé et fermé des adultes, Christine Orban touche avec humour, limpidité et mélancolie à l’essentiel de toute vie."
Como já sabem este livro foi (mais um...) dos presentes da minha mãe. Tenho a certeza que o escolheu pelo título e somente pelo título: não te esqueças de ser feliz! Ou então pelo seu resumo...
Este livro, que infelizmente ainda não está traduzido para a língua portuguesa, é uma história de vida doce e intrigante de uma jovem que corre atrás de um sonho: ir viver para Paris e ser snobe. Desde criança que procura a felicidade na concretização deste sonho, será que o consegue? É especialmente interessante verificar como os ensinamentos do pai e da mãe vão correndo o livro, sendo as principais referências para esta jovem marroquina quando vai viver para Paris.
Muito interessante! Uma leitura ligeira de interculturalidade, um romance divertido e comovente que relembra a todos os filhos e pais que existem recomendações que ficam para toda a vida.
Mãe, não me vou esquecer de ser feliz!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Reflexão...


"A terra é insultada e oferece as flores como resposta."
Tagore, Rabindranath

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O nosso icebergue está a derreter

O livro O nosso icebergue está a derreter é uma fábula que reflecte a melhor forma de levar a cabo uma mudança mesmo em condições adversas.

A história centra-se num grupo de pinguins imperadores. Fred, um pinguim especialmente curioso, atento e observador, descobre que um problema possivelmente devastador ameaça a sua colónia – que vive presa à tradição há muitos anos… O desaparecimento do icebergue.

Um problema sem solução, porém uma simples observação de uma gaivota e eis que surge a resolução… Tornarem-se nómadas. Este novo conceito levantou alguma celeuma por parte da comunidade devido ao factor mudança… Difícil é aceitar a mudança.

Considero este livro uma analogia fantástica, pois com esta história, o autor visa alcançar milhares de pessoas e de organizações, sendo que a mais importante mudança é a de atitudes. E creio que deveríamos ter em consideração a reflexão de Aristóteles, onde diz que, "Só fazemos melhor aquilo que repetidamente insistimos em melhorar. A busca da excelência não deve ser um objectivo. E, sim, um hábito." Mesmo quando difícil, é preciso levar a cabo as suas convicções porque só assim teremos um Mundo melhor capaz de enfrentar novos desafios.

Voltando aos pinguins, até conseguiram descobrir o icebergue perfeito e a mudança aconteceu de uma forma tranquila com a colaboração de todos. Certamente o homem também terá o poder da mudança e a crença de que, todos unidos, é mais fácil viver… Nem que seja com mudança…

Ana Lúcia Baptista

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Para mulheres fenomenais... e não só!


Tem sempre presente que a pele se enruga,
O cabelo embranquece, os dias convertem-se em anos...
Mas o que é mais importante não muda;
A tua força e convicção não têm idade.
O teu espírito é como qualquer teia de aranha.

Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida.
Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.

Enquanto estiveres viva, sente-te viva.
Se sentes saudades do que fazias, volta a fazê-lo.
Não vivas de fotografias amarelecidas...
Continua, quando todos esperam que desistas.
Não deixes que enferruje o ferro que existe em ti.
Faz com que em vez de pena, te tenham respeito.
Quando não conseguires correr através dos anos,
Trota
Quando não consigas trotar, caminha.
Quando não consigas caminhar, usa uma bengala.
Mas nunca te detenhas!!!.

Madre Teresa de Calcutá

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A cobra e o pirilampo mágico


"Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um pirilampo que só vivia para brilhar...!

Ele fugia rápido, com medo da feroz predadora e a cobra, nem pensava em desistir. Fugiu um dia e nada; ela não desistia. No terceiro dia e já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:

- Posso fazer-te três perguntas?

– Podes. Não costumo abrir esse precedente para ninguém mas já que te vou comer, podes perguntar.

- Pertenço à tua cadeia alimentar?

– Não!
Fiz-te alguma coisa?

– Não!

Então porque é que me queres comer?

– Porque brilhas mais do que eu!!!"

O trabalho, neste final de ano lectivo, tem sido imenso, não me deixando tempo para actualizar as minhas leituras.

Na semana passada, reflectimos no blogue
Fascínio das Palavras sobre esta pequena fábula... Acho interessante também partilhar com todos os nossos amigos da Floresta.

terça-feira, 30 de junho de 2009

O avô Augusto

Numa aldeia ribatejana, havia uma casa, situada perto da então designada escola primária, era a do avô Augusto, também conhecido pel’ O Pião. O avô Augusto era um homem alto, magro, com umas mãos enormes, muito dedicado ao trabalho e à família.
O avô Augusto era o sapateiro da aldeia, pelo que conhecia todas as pessoas e passava parte do seu tempo à conversa com elas. Pelas manhãs, vagueava pela aldeia para fazer a distribuição dos sapatos em busca do seu ganha-pão. Um dia convidou-me para o acompanhar. Agarrei a enorme mão do avô e parti com ele para mais um dia.
Chegámos perto de uma casa muito velhinha e o avô bateu à porta. Esperámos algum tempo e, de repente, a velha porta abriu-se:
-Bom dia Senhora Emília! Como tem passado? -disse o avô.
-Bom dia Senhor Augusto! O que o traz por cá hoje!
-Os sapatos, venho-lhe trazer os seus sapatos.
-Ah! Senhor Augusto a vida está tão má, eu não lhe posso pagar. Espero que compreenda, o meu marido está doente e…
Do interior da casa, ouviam-se gritos:
- Emília quem está aí? Oh mulher! quem é?
A Senhora Emília envergonhada respondeu:
-É o Senhor Augusto e a sua netinha.
-Quem?
-O Pião.
-Não… Nós não temos dinheiro. Guarda os tostões para o pão!
O avô Augusto percebeu que não havia dinheiro para pagar o conserto dos sapatos. Ficou sério, olhou para a senhora Emília e disse:
-Não se incomode, fique com os sapatos e pagará quando puder.
O Avô agarrou a minha mão e seguimos rumo a casa. Já estávamos longe, no entanto ainda se ouvia a senhora Emília a gritar “Bem-haja, Bem-haja Senhor Augusto”. Como não tinha percebido as palavras da senhora Emília, perguntei ao avô:
- O quer dizer Bem-haja?
- Obrigado. Explicou o avô.
- Avô…
- Diz Ana, o que é?
- Como é que vai comprar o nosso pão?
- Ana, ouve bem as palavras deste homem velho e cansado. Se ajudares os outros, serás sempre recompensada.
Após um momento de silêncio, o avô abraçou-me e retrucou:
- Não te preocupes, cá nos havemos de arranjar.
O avô Augusto era assim, sempre compreensível e amigo daqueles a quem a vida pouco deu.
Fiquei comovida, com uma lágrima no canto do olho, e disse:
-Avô, tu és amigo das pessoas…Gosto tanto de ti.
O avô apertou fortemente a minha mão e continuámos a árdua tarefa de entregar o calçado às pessoas de aldeia.
O dia chegava ao fim e eu já apresentava alguns sinais de cansaço. A noite estava a ficar escura e amedrontadora. Segurava-me cada vez mais àquela mão forte para me proteger dos meus fantasmas de criança…
Quando, de repente, balbuciei timidamente:
-Avô está…a… a escurecer.
-Não tenhas medo, Ana. À noite as estrelas brilham e indicam-nos o caminho a seguir. A estrelinha cintilante é o teu Anjo da Guarda.
Olhei para o Céu à procura da Estrela, do meu Anjo da Guarda… Porém, como não a encontrei, perguntei com alguma tristeza:
-Avô! não consigo ver o meu Anjo da Guarda?
-Olha para as estrelas e ouve o teu coração!
Cresci na esperança de encontrar aquela estrela… Esperei muitos anos. Só a encontrei mais tarde, no dia em que tive de explicar aos meus filhos, Rafael e Beatriz, que o avô Augusto vivia agora naquela estrelinha cintilante…
Ainda hoje me lembro das palavras do avô, apesar de não saber ler nem escrever, era um velho sábio porque a vida ensinara-lhe muito. Aquelas rugas personificavam as tristezas e as alegrias de uma longa caminhada.
Também escrevo... espero que gostem...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A nuvem ou o sonho de ser almofada

«O sol brilhava alto no céu quando as primeiras nuvens começaram a aparecer no horizonte. Cinzentas e brancas, rebolavam as nuvens, umas sobre as outras, brincando com o vento, com risinhos e gargalhadas. Oceana olhava para as suas irmãzinhas com carinho e doçura, mas já cansada da brincadeira.
Oceana era uma jovem nuvem, empenhada na escola “Nubelina”. Aprendera empenhadamente o ciclo da água, quais os dias em que deveria de pingar, chover ou fazer trovoada sobre a terra. Como qualquer outro trabalho escolar, Oceana ouvia tudo o que lhe era explicado com extrema paixão porque sabia o quanto a terra e os seus seres vivos dependiam dela, das suas irmãs, dos seus irmãos… e do resto de toda a sua família.
No entanto, Oceana não era totalmente feliz, no fundo do seu coração, a tristeza por vezes vencia; sempre achara que a sua missão não era só aquela, apesar de ser muito importante. Muitas das suas gotinhas caíam sobre a terra para alimentar o chão onde eram depositadas sementes pelos agricultores, para regar a relva e as flores dos jardins, para ajudar o pintassilgo a tomar o seu banho semanal. Muitas vezes, as suas gotinhas molharam homens e mulheres atarefados na sua vida rotineira, ensoparam crianças ao sair da escola ou encharcaram o cãozinho que dormia na soleira da porta da casa amarela.
A noite caía, Oceana continuava, como todas as noites, a vaguear pelo céu com a sua família; nómadas a percorrer o mundo em busca de terras secas para alimentarem. Quando a lua ia alta, descansavam aconchegadinhas umas às outras, muitas vezes sob o olhar dos astros, pedindo desejos às estrelas cadentes.
“Eu queria tanto ser uma almofada.” Desejava Oceana secretamente, na esperança de sentir a cabeça de uma criança no seu regaço.
O sono chegou. Oceana adormeceu, pingando devagarinho sobre as terras de Portugal.
O sol voltou a brilhar no céu. Oceana abriu os olhos, os seus pingos não caíam mais sobre a terra… assustou-se ao ver-se deitada em cima de uma relva verdinha de um lindo jardim florido com rosas vermelhas, jasmins brancos e tulipas amarelas. O latido de um cão, que mais se parecia com uma ovelhinha malhada, fê-la tremer de medo. Oceana olhou para o céu, não viu nenhuma das suas irmãs, nenhum dos seus irmãos ou parentes, tinham seguido caminho… sem ela. Oceana caíra na terra!
Aterrorizada e sem perceber o que pudera ter acontecido, Oceana ouviu passos… Uma linda criança morena, com caracóis rebeldes aproximava-se dela. Nunca tinha visto uma criança de tão perto, apesar de muitas vezes as ter visto a brincar e a saltar, diversas vezes sonhara com elas e como poderiam brincar todos juntos. A criança aproximou-se e abraçou a nuvem que tremia de medo.
- Pára de latir, Branquinha, é só uma almofada branca… que cheira a chuva e a terra molhada.
Serena agarrou em Oceana com extremo carinho e levou-a para dentro de casa. A Branquinha parou de ladrar e o coração de Oceana sentiu-se reconfortado, começando a bater mais devagar. O medo estava a desaparecer.
Ao entrar à porta do orfanato “Sorriso da Estrela Cadente”, Serena mostrou a sua nova aquisição às crianças pequenas, grandes, morenas, loiras… felizes por viveram num espaço tão acolhedor como aquele que as recolhia. Serena aconchegava a sua nova descoberta junto ao peito; a nuvem branca sentia-se valorizada e preciosa naqueles braços tão pequeninos.
- Vou ficar com esta nova almofada. A minha, que já foi da Maria e antes fora da Carolina, está cansada dos meus sonhos e dos meus pesadelos.
Subiu apressadamente as escadas, até ao segundo andar, entrou na bela camarata que partilhava com outras crianças pousou a linda almofada branca que cheirava a chuva em cima da sua cama. Pegou na sua antiga almofada e depositou-a ncesto da cadelinha, que logo se deitou e começou a dormir.
O cheiro a chuva pairava na camarata. Serena sorria de felicidade… foi então que Oceana percebeu: o seu desejo tinha-se cumprido; a nuvem branca era agora uma bela e fofinha almofada que caíra na relva daquele orfanato para ajudar Serena.
-Tenho uma nova almofada! - Murmurava Serena.
Todas as crianças estavam felizes e sorriram com a Serena.
Oceana sentiu uma gotinha a cair na cama.
“Nunca mais vais ter pesadelos, prometo-te Serena!”»

E porque eu também gosto de escrever... da minha autoria... espero que gostem!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Novas Ofertas



As mães são realmente fantásticas... não acham? Pois a minha, é mesmo fantástica... mesmo em trabalho fora do país, lembra-se da minha grande paixão pela leitura...
Aqui estão os meus novos livros para ler, a aguardar na prateleira a oportunidade do momento adequado.
Apesar de muitas vezes me mandar parar de ler (tem a sua graça, porque as mães normalmente mandam os filhos lerem, não é!!!)... não hesita em participar mais uma vez no enriquecimento da minha biblioteca. Obrigado :O)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Poesia

"Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz"
Charles Chaplin

Via Ana Martins.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O Rato de Alexandria - O livro que falava com o vento e outros contos

Enquanto fazia o percurso das bibliotecas ao longo dos tempos, veio-me à memória “O Rato de Alexandria”, um dos contos de O livro que falava com o vento e outros contos,de José Jorge Letria. Esta história trata de um rato que morava num sítio especial: a Biblioteca de Alexandria, onde havia milhares de pergaminhos e papiros, contendo todos os conhecimentos que os homens tinham até então conseguido acumular e passar para a escrita. Sentiu curiosidade por desvendar os segredos guardados naqueles documentos e transformou-se no primeiro rato a saber ler, descobrindo imediatamente o prazer da leitura. Assistia às animadas discussões que ocupavam durante vários dias os cientistas e os filósofos de Alexandria. “Conhecia todos os grandes sábios do seu tempo e, à medida que os ia conhecendo, ganhava admiração por eles e ficava com pouca paciência para ouvir as deslavadas conversas dos ratos seus irmãos.”
De leitura em leitura, foi ficando cada vez mais sábio e, ao mesmo tempo, envelhecendo.

Alexandria também envelhecia. Um dia, um grande fogo começou a alastrar dentro da biblioteca e o rato, antes da fuga, conseguiu juntar alguns pergaminhos e levou-os para longe do incêndio. Nos anos seguintes, num templo dos arredores da cidade, o rato de Alexandria não esqueceu nada do que tinha aprendido e conseguiu transmitir os seus conhecimentos aos ratos mais novos.

Um dia o rato morreu… Contudo, “muitos anos depois, todos os ratos dessa terra sabiam ler e veneravam uma estrela estranha e longínqua chamada Alexandria.

Do mesmo livro, também vou destacar o conto “O Sábio, o Califa e o Saber”, onde um califa ordena ao homem mais sábio da corte que organize e resuma todas as formas de saber que, durante séculos, foram armazenadas pelos sábios, pelos cientistas e pelos poetas do seu reino. Tinham sido feitas grandes descobertas, mas o califa temia que se perdessem, pois andavam só de boca em boca…

Esta passagem ilustra o reconhecimento da importância da palavra escrita. De facto, já na Antiguidade, os governantes se preocupavam em mandar escrever os documentos mais relevantes. Um bom exemplo disso é o Código de Hamurabi, um dos mais antigos conjuntos de leis escritas, elaborado por volta de 1700 a.C.

A história de José Jorge Letria continua, mas deixo-vos o grato prazer de a descobrirem, bem como aos outros contos que fazem parte deste livro fantástico.

Lídia Valadares