sábado, 25 de abril de 2009

Ainda sobre “Como um Romance” de Daniel Pennac

Adoro o livro “Como um Romance”, tal como todos os que conheço deste autor. Sou fã de Pennac. Ainda sobre o mesmo livro, gostaria de partilhar convosco algumas partes com as quais estabeleci um especial “diálogo” (sim, porque a competência literária permite ao leitor estabelecer diálogos com o texto…).

“É preciso ler, é preciso ler… E se em vez de exigir leitura o professor decidisse de repente partilhar o seu prazer de ler?” (p. 77). Concordo plenamente com esta sugestão do autor. Se, pelo uso do imperativo, não atingimos o nosso objectivo de levar os jovens a ler, então, enveredemos pela arte da sedução, contagiando-os com o prazer da leitura.

Mais à frente, quando Pennac se dedica ao 8º direito inalienável do leitor, “O direito de saltar de livro em livro (ou o direito de debicar)”, podemos reflectir sobre algumas considerações do pedagogo, neste âmbito. “Eu debico, nós debicamos, deixemo-los debicar. É a autorização que damos a nós próprios de retirar qualquer livro da nossa biblioteca, de o abrir onde nos apetecer e de mergulharmos nele por um instante, porque só dispomos desse instante. (…) Assim podemos abrir Proust, Shakespeare ou a Correspondência de Raymond Chandler, em qualquer página, “debicar” aqui e ali sem correr o mínimo risco de decepção.

Quando não se tem tempo nem os meios para passar uma semana em Veneza, porquê recusar o direito de lá passar cinco minutos?” (p. 161). Subscrevo inteiramente estas opiniões, pois, tal como Pennac, também considero que mais vale ler durante alguns momentos e conhecer um pouco de alguns autores/livros do que não ler/conhecer nada. Além do mais, creio que é neste “debicar” que nós encontramos as “nossas” leituras, os “ nossos” autores, os “nossos” temas preferidos, a nossa identidade literária.

E vou terminar com uma passagem que se refere à importância e à delicadeza do acto de ler em voz alta, sendo um alerta para quem o realiza. “O homem que lê em voz alta expõe-se em absoluto. Se ele não sabe o que está a ler, é ignorante no que diz, é uma lástima, e isso ouve-se.
Se se recusa a habitar a sua leitura, as palavras mantêm-se letras mortas, e isso sente-se. (…) O homem que lê em voz alta expõe-se totalmente aos olhos que o escutam.
Se ele lê verdadeiramente, se nessa leitura coloca o seu saber dominando o seu prazer, se a leitura é um acto de simpatia tanto para com o auditório como para com o texto e o seu autor, se consegue dar a entender a necessidade de escrever acordando a nossa mais obscura necessidade de compreender, então os livros abrem-se por completo, e a multidão dos que se julgavam excluídos da leitura, mergulham nela atrás dele.”

Que levemos muitos atrás de nós, a mergulhar na leitura!
Lídia Valadares

4 comentários:

Cristina Bernardes disse...

Este livro é realmente muito bom e adorei o comentário da Lídia. O prazer de ler... ao gosto de cada leitor, o debicar, o deixar um livro a meio, ler dois ou três ao mesmo tempo, ler, deixar e recomeçar...

Ler em voz alta, ler em família... Eu adoro estar na cama com as minhas filhas, cada uma com o seu livro... ler, observar as ilustrações, comentar, esclarecer significados; é verdadeiramente um momento nosso.

Cristina Bernardes disse...

Hoje, com o tempo que está...a chover, os livros foram os meus melhores amigos... sentados no sofá...vivemos aventuras formidáveis...

Lídia disse...

Também me têm feito companhia ao longo do dia... e, curiosamente, a minha postura, hoje, tem sido a de saltar de livro em livro, "debicar" aqui e além, reflectir e escolher estratégias para procurar seduzir mais alguns para a leitura. Gosto deste desafio!

Lídia Valadares

isilda disse...

Não há fim-de-semana algum que eu não descubra novas leituras. Se já deste conta, todos os livros que me vêm à mão, interessam-me logo. Porquê? Porque já estamos de tal forma acordadas, que todas as palavras nos lêem, mergulhamos sem dar conta.
Estaremos a começar a ser umas bibliófilas? Não me importo nada e tu também não, não é verdade? Quem nos dera que os nossos alunos seguissem os nossos passos, em parte, ou mesmo os seus pais. Pode ser que se vá conseguindo. Tenhamos esperança!

Isilda Lourenço Afonso