domingo, 17 de maio de 2009

A Arca de Noé

Nesta versão, Pedro Strecht (pedopsquiatra e um estudioso do desenvolvimento das crianças e da sua aprendizagem) não se limita a contar o Dilúvio descrito no Antigo Testamento. Como é alguém que lida diariamente com crianças, sabe que para que este episódio tenha algum significado para aqueles meninos e meninas que o possam vir a conhecer, seria necessário dar-lhe vida, realismo, interagir de uma forma quase actual (para não dizer totalmente actual).
De uma forma leve, familiar e de fácil compreensão devido ao discurso empregue, este escritor coloca os diálogos como se tudo estivesse a acontecer hoje. Até há excertos com piada, mas com um sentido e significado sérios.
Durante os dias do Dilúvio muitos ensinamentos são transmitidos aos leitores. Em todos os diálogos, o narrador não se coíbe de formular um conceito, uma atitude perante os momentos maus, as diferenças que existem entre os seres, põe-nos a fazer um baile para se distraírem das agruras da viagem, a brincar à gramática, etc.
Noé trabalhou dia e noite para construir uma embarcação sólida e resistente que aguentasse a fúria de Deus. Deus tinha-se zangado com os homens e agora iria castigá-los. Noé sabia disso e conduziu os animais e a sua família para a arca, mas assim que lá entraram começaram os desentendimentos. A girafa pôs-se a insultar a tartaruga, o hipopótamo meteu-se ao barulho e Noé acabou por pisar o porco-espinho. Os animais competiam uns com os outros pelo espaço e Noé teve que intervir para apaziguar os ânimos, explicando-lhes como um velho sábio que tudo o que é importante está dentro de nós.
Esta é uma obra que sem ninguém conhecer a Bíblia ou os episódios da religião cristã, a lêem, relêem com os seus alunos ou filhos, mas sempre numa perspectiva de indagação, da problematização, de não criticar os outros, realçar a amizade e a solidariedade…
Reparemos nos seguintes segmentos que Pedro Strecht escreveu e que dizem muito do conteúdo da obra:
“- Esta arca significa o amor que tenho pela vida!”(p. 14)
“- Respeitem-se, seja qual for o vosso tamanho, cor, forma ou feitio. Sejam todos amigos…”(p. 16)
“- Amigo, não temos de ser fortes em tudo. Olha à tua volta e traz-me aquele que nunca deu parte de fraco!” (p. 21)
“- Da fraqueza nasce a força…”(p. 22)
“- Quem não tem defeitos? Dêem valor às qualidades dos outros! Para gostarmos de nós, devemos ter respeito por quem nos rodeia.” (p. 27)
“- No que quer que façam, sobretudo em ocasiões difíceis, deixem o coração falar. Mostrem os vossos sentimentos, sem medo nem vergonha! E não sejam desagradáveis uns para os outros!” (p. 30)
“E se alguma coisa aprenderam ao longo daqueles meses, foi que ao conflito, à tristeza, ao desespero, se sobrepõe a amizade, o amor, o respeito pelos outros e o gosto de viver.”(p. 35)

Partilhem desta leitura e descobrirão o valor da amizade, do companheirismo e da união. E mais… apreciem as imagens bem sugestivas e dignas de descrição e de interpretação, quer pelos mais pequenos, quer pelos menos pequenos!

Isilda Lourenço Afonso

2 comentários:

Lídia Valadares disse...

Impossível não reconhecer actualidade nesta obra! Quem nunca se sentiu numa "Arca de Noé" a enfrentar um "Dilúvio" furioso? Quanto às atitudes dentro da Arca, soam-me a "déjà vu" (Não sei porquê!...)Portanto, espaço e personagens fomentam a interacção, a resposta do leitor.
Os valores que perpassam os segmentos que transcreveste são maravilhosos. Em relação ao teu comentário, SEDUTOR!
Estou ansiosa por ler o livro e já sei quem mo vai emprestar! Adivinhem.

Lídia Valadares

Cristina Bernardes disse...

Acho que também vou pedir emprestado... acha que ela deixa??? Lídia. Bjos