quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Chagrin d'école - Daniel Pennac


"Sempre disse que a escola são os professores. Quem me salvou foram três ou quatro professores" (D. Pennac, 2007, p.57)


Ainda não está traduzido em português, mas podíamos traduzi-lo por “Insucesso na escola”. Foi uma obra que descobri por acaso, numa citação, e que logo me impeliu para a pesquisa. Como professora, educadora e formadora não o poderia perder. Enfim, depois de muito “bater à porta” de tantas editoras, uma possuía mesmo o original, em língua francesa.
Li, reflecti e fiz a ponte com a nossa realidade. Nada mais parecida. Afinal o que afecta a educação em França é, certamente, o que temos no nosso país. Daniel Pennac dá-nos a verdade nua e crua da realidade escolar e o porquê do insucesso. Ele, o grande pedagogo, pensador, sociólogo e homem de literatura. Com o seu exemplo (ele era um mau aluno, mas daqueles que todos nós conhecemos, um agitador, um desinteressado, um preguiçoso, “un cancre” como se diz em francês, para designar de forma grosseira aquilo que vulgarmente se diz “burro”), qualquer um que leia o livro chega à conclusão que não há alunos bons nem maus. Há alunos que se encontram perdidos, sem saberem o seu rumo. É necessário que alguém lhes indique o caminho.
Fala-nos dos problemas sociais da actualidade, indicando algumas chaves pedagógicas para pais e professores. Tudo o que ele é o deve a três professores – os seus salvadores. O primeiro de todos, um professor de Língua Materna (para ele o francês), teve a feliz ideia de acabar com as suas desculpas e dissertações para se desculpar da falta de estudo e dos deveres de aluno, pedindo-lhe que escrevesse um romance. Foi este o clic que o chamou à realidade, introduzindo-o no mundo da literatura. Nunca mais deixou o dicionário, os bons escritores e a leitura. É um auto-retrato, cheio de humor e de factos reais, mas saborosos. Fascina-nos com o seu talento e a sua capacidade de contador de histórias.
Só para professores? Não. Essencialmente para pais, tal como ele teve o grande apoio familiar, apesar de todos os insucessos escolares que ia revelando. O suporte familiar nunca falhou. Depois, bastou o feeling de alguns professores para o fazerem despertar. Palmas para Daniel Pennac e para todos os professores que, tal como aqueles que descobriram este prodígio, tanto fazem pelo ensino e pela educação.
A propósito, também descobri um poema de Jacques Prévert que nos fala dos chamados alunos a quem apelidam de “cancres” e que não queria deixar de vos dar a conhecer, pois está na linha do discurso da obra aqui referenciada. É ao mesmo tempo real e cruel.
Vão as duas versões, sendo a portuguesa traduzida e adaptada por mim, para que todos compreendam.


“Le cancre”

Il dit non avec la tête
Il dit oui avec le coeur
Mais il dit oui à ce qu’il aime
Il dit non au professeur.
Il est debout
On le questionne
Et tous les problèmes sont posés.
Soudain le fou rire le prend
Et il efface tous les chiffres et les mots,
Les dates et les noms,
Les phrases et les pièges.
Et malgré les menaces du maître,
Sous les huees des enfants prodiges
Avec des craies de toutes les couleurs
Sur le tableau noir du malheur
Il dessine le visage du bonheur.

Jacques Prévert


“O mau aluno”

Ele diz não com a cabeça
Ele diz sim com o coração
Mas diz sim àquilo de que gosta
Ele diz não ao professor.
Ele está de pé
Alguém o questiona
E todos os problemas se colocam.
De repente, desata a rir-se
E apaga todos os números e palavras,
As datas e os nomes,
As frases e as ciladas.
E apesar das ameaças do mestre,
Sob os apupos dos meninos-prodígio,
Ele desenha o rosto da felicidade
Com o giz de várias cores
No quadro negro da infelicidade.

Isilda Lourenço Afonso

Nota: 10/10

8 comentários:

Cristina Bernardes disse...

Bem nem sei por onde começar:

1º - Estou a ler o livro e estou a adorar o "Chagrin d'école" do Daniel Pennac.
2º - É divertido, com uma escrita muito simples e objectiva.
3º - A reflexão da Isilda realça o que de mais relevante existe no texto.
4º - A escolha de Jacques Prévert, é de levantar o chapéu "BRAVO": ADOREI. Recordei tempos de infância em que no meu colégio (Notre Dame de Bellegarde - Neuville sur Sâone), nos obrigavam (nós alunos) a decorar vezes sem conta este fabuloso poema (na altura não o achavamos tão fabuloso assim... mas enfim!)
5º - Esta obra é sem dúvida uma referência para os que são professores e educadores que amam os alunos.

Obrigado Isilda por esta reflexão!

Cristina Bernardes disse...

Só mais uma palavrinha,óptima tradução...

Cristina Bernardes disse...

Para quem quer prolongar o estudo:

http://terrear.blogspot.com/search?q=Daniel+Pennac%7E

http://terrear.blogspot.com/2007/12/escola-do-ponto-de-vista-do-mau-aluno.html

Lídia Valadares disse...

Excelente comentário! Li e reli com prazer a tua reflexão. É impossível não ficar ansiosa pela leitura deste livro. Focaste com mestria os pontos-chave da mensagem e mostraste a pertinência da sua leitura, à luz da nossa realidade, das nossas vivências e experiências.
Tu dizes: "Palmas para Daniel Pennac..." É evidente que concordo (Tu sabes quanto eu o aprecio!) mas eu digo "Palmas para ti, também, por esta análise fantástica!" Tu dialogaste com o Pennac - pedagogo, pensador, sociólogo e escritor e partilhaste connosco a súmula das tuas análises.
Quanto ao poema, achei-o uma "moldura" perfeita para o retrato do autor, parece um irmão gémeo da narrativa de Pennac.
Não posso deixar de sublinhar a citação que inicia o teu comentário. Demorei sobre ela uns bons momentos. Saboreei-a. Aplaudi-a. Perfilhei-a. Sorri e pensei: "É D. Pennac, sem dúvida! Só este pensamento valia o livro."
Faço uma vénia ao "nosso" Pennac e, a ti, dou-te os parabéns e agradeço-te o dares a conhecer mais um tesouro daqueles que sabes encontrar.

Cristina Bernardes disse...

Tenho de voltar para colocar aqui um novo comentário.

A minha leitura do livro continua... na página 159, Daniel Pennac fala da necessidade de decorar para "découvrir les capacités prodigieuses de sa mémoire".

A verdade, é que no Collége Notre Dame de Bellegarde, decorar era um costume usual de todos os dias, para o qual eu não via, na minha tenra idade, grande necessidade.

Mas o curioso é que ao ler este capítulo sobre o valor de decorar, lembrei-me de uma professora de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras de Lisboa, já com um certa idade(de certo está na reforma a esta hora, que referia várias vezes ao longo do ano, que para não perder a memória com a sua idade, fazia pela manhã, uma lista com coisas banais e triviais. Palavras que nem sempre poderiam fazer sentido para os outros mas que para ela representavam um exercício mental que lhe permitia saber como funcionava a sua mente.
Dizia mesmo que se chegasse ao final do dia sem se lembrar da sua lista, seria um dia muito triste porque seria sinal que estaria a envelhecer na alma!!!

Lustato Tenterrara disse...

Muito bom o site... E este post, entre outros...

Parabéns.

Lustato.

ps.: Tomei a liberdade de fazer uma apresentação deste brilhante site, blog e deste post, na minha Rede de Relacionamentos Brasil Poesias.

Assim que eu publicar, trago o link.

Um abraço.

Lustato

Hi...

Táh aqui o post.
Daniel Pennac by Isilda


http://brasilpoesias.ning.com/profiles/blogs/le-cancre-poema-de-jacques

beijos...
Lustato

Anónimo disse...

Cheguei de link em link, via JMA e Cristina Bernardes. Gostei e divulguei. Vou voltar mais vezes, porque este é um sítio bom para crescer. Parabéns.
Elsa Duarte

Cristina Bernardes disse...

Chagrin d'École
Daniel Pennac
DEL-L -Porto Editora
Abril 2009 - tradução em português

"O autor de "Como um Romance" regressa com este livro que lhe valeu o Prémio Ranaudot 2007.
A partir da sua experiência refl ecte sobre as escolas de hoje. Uma "bomba" sobre os problemas da escola e do ensino, considera o editor português."
Porto Editora