quinta-feira, 19 de março de 2009

A Fonte dos Segredos


Esta obra, recomendada pelo Plano Nacional de Leitura, da autoria de Maria Teresa Maia Gonzalez, é ao mesmo tempo divertida e um espelho de sentimentos e afectos que dizem respeito não só às crianças como aos jovens.
O Gustavo (a quem o pai chamava o Gafanhoto) era um menino que amava a Natureza, tinha muitos amigos (o Conta-Gotas, o Litos, o Dentes-de-Aço, o Badalo, o Pelé), para além da paixão pelos animais (o Baltazar – porquinho-da-índia; o Queijo Fresco, o hamster; dois periquitos – o Simão e o Brasileiro; um melro – o Bezerrão; três grilos – os Três Mosqueteiros e os bichos-da-seda) e possuía o seu laboratório onde fazia as suas experiências (frascos com álcool que continham vários espécimes de animais e de vegetais). Queria ser veterinário, tal como o seu pai.
Conta-nos um lindo Verão passado numa vila perto de Viseu, quando conheceu a Joaninha (uma menina de Lisboa) que passou a ser sua amiga e por quem se apaixonou. Ensinou-a a andar de bicicleta e acabou por adorar a vida livre e alegre de todos aqueles meninos. Já não queria voltar para Lisboa, onde iria ter de decidir se ficaria com o pai ou com a mãe, pois estes iriam divorciar-se. O Gustavo ficou preocupadíssimo, mas nada pôde fazer.
É uma história que revela as descobertas que a personagem fez acerca da família, do mundo e do amor. As pessoas de quem ele gostava eram a sua avó e o seu pai. Os seus meio-irmãos gémeos só o importunavam (andavam já na faculdade) e ele acabava por se refugiar nos seus animaizinhos, nos passeios à montanha, ao rio e suas grutas e nos longos diálogos com a avó.

A leitura é fácil e descontraída à mistura com momentos de humor que nos deixam um pouco ansiosos por descobrir ascendentes daquela família, mas que a narradora não desvenda. Seremos nós a fazê-lo e a reflectir. Continua a ser tónica desta autora a preocupação pelos problemas sociais e familiares, mas não esquecendo de valorizar o amor.
Ora reparem no poema que o Gustavo escreve à menina da escola por quem ele se apaixonou (uma grande desilusão, um amor não correspondido), pela primeira vez, e que o seu professor da escola primária elogiou na turma, depois de ter pedido que escrevessem um poema.

Lá no alto da montanha
Vive a menina do véu.
Eu ofereci-lhe uma aranha
E ela nem me agradeceu!

Era uma aranha diferente,
Sem veneno e bem bonita.
E em vez de ficar contente
Ela fez logo uma fita!

Não sei que mal lhe fiz eu
Para ela ficar assim,
Pois a menina do véu,
Nunca mais olhou para mim!

Não volto a dar-lhe uma aranha,
Nem lhe espreito à janela
Que fique lá na montanha
Que eu não olho mais para ela!

No entanto, não queria deixar de vos mostrar um dos segmentos do texto que me tocou e que o Gustavo transmite à Joaninha, dizendo-lhe que fora a sua avó quem lho ensinara:

“…quem voa, escusa de se preocupar com ninharias; e não precisa de ter medo, porque pode sempre fugir, de um momento para o outro, vum!, sem ser perseguido. A vida dos pássaros é a melhor que há. Excepto os pavões… (p. 92)”

3 comentários:

Cristina Bernardes disse...

Isilda, mais um livro muito interessante que nos apresenta aqui hoje. A lista de livros para eu ler em família, já vai longa, mas ainda vou acrescentar mais este.

Lídia disse...

Isilda:

Deixaste-me com vontade de ir à fonte... descobrir os seus segredos. E lá irei. Não resisto a uma história simultaneamente divertida e reflectora dos problemas sociais. É uma maneira de intervir na sociedade, fazendo-a reflectir sobre o seu estado, mas de uma maneira suave, leve (porém, não menos séria). E Mª Teresa Gonzalez faz isso com mestria. Além do mais, o teu comentário aguça o apetite.
Agora, vamos ao "voo". Está provado: "voar" é um exercício fabuloso! Físico (penso que deve ser) e mental, seguramente. Eu já o suspeitava, mas depois das opinões de dois escritores que nós citámos recentemente, não há margens para dúvidas. Sepúlveda deixa a mensagem que "Só voa quem se atreve a fazê-lo."; Gonzalez afirma que "...quem voa escusa de se preocupar com ninharias..." Plenamente de acordo. Ora, então, toca a voar!
Um abraço.

Lídia Valadares.

Maria José Speglich disse...

Amei seu blog.

Beijocas!