terça-feira, 22 de setembro de 2009

A Obsessão do Fogo

"O e-book não matará o livro", "O livro não morrerá" são afirmações assertivas de dois amigos e homens que amam a cultura. Humberto Eco (um semiólogo e sociólogo) e Jean-Claude Carrière (argumentista de filmes) encetam uma verdadeira cruzada em torno dos livros e das bibliotecas ao longo de milhares de anos, cruzando pontos de vista, estórias e reflexões que os levam a reflectir sobra a idiotia e a imbecilidade do mundo, acabando por revelarem a eterna preocupação do Homem pelo fogo, principalmente em relação às bibliotecas. Todos sabemos que foi exactamente o fogo o grande responsável pelo desaparecimento de bibliotecas famosas e a perda incalculável de livros e incunábulos que testemunhavam a História da Humanidade.
É uma obra que proporciona cultura e nos desafia à reflexão sobre questões que nunca nos passaram pela ideia, mas que são reais, para se concluir que o livro é a nossa memória. Há, no entanto, uma passagem que não posso deixar de vos transcrever e que se relaciona com Portugal, contada por Humberto Eco, para mostrar o quanto se dá valor aos livros em determinadas sociedades (neste caso, a nossa). Conta ele:
"Vou contar-lhes uma história divertida. Visitei a biblioteca de Coimbra, em Portugal. As mesas estavam revestidas de um pano de feltro verde, um pouco como mesas de bilhar. Pergunto as razões dessa protecção. Respondem-me que é para proteger os livros dos excrementos dos morcegos. Porque não eliminá-los? Muito simplesmente porque eles comem os vermes que atacam os livros. Ao mesmo tempo, o verme não deve ser radicalmente proscrito e condenado. É a passagem do verme pelo interior do incunábulo que nos permite saber de que modo as folhas foram ligadas, se não há partes mais recentes que outras. As trajectórias dos vermes desenham, por vezes, estranhos padrões que emprestam um certo carácter a livros antigos. Nos manuais destinados a bibliófilos, encontramos todas as instruções necessárias para nos protegermos dos vermes. Um desses conselhos é utilizar o Zyklon B, a mesma substância usada pelos nazis nas câmaras de gás. É certo que mais vale empregá-la para matar insectos do que homens, mas faz uma certa impressão. Um outro método menos bárbaro consiste em colocar um despertador, daqueles que possuíam os nossos avós. Parece que o seu ruído regular e as vibrações que transmite à madeira dissuadem os vermes de sair dos seus esconderijos".

Responde Jean-Claude Carrière: "Por outras palavras, um despertador que adormece (pp. 281-282)".

Torna-se engraçado, mas aprendemos algo. Este diálogo, em jeito de reflexão, proporciona não só ideias como ferramentas culturais que nos enviam a uma aturada pesquisa sobre os livros e a cultura. E nesta época sitiada, incerta, em que o primeiro dever de cada um é, sem dúvida e quando possível, favorecer as trocas entre saberes, experiências, pontos de vista, projectos e esperanças, que todas estas tarefas serão possíveis com os livros e o diálogo entre culturas para que uma sociedade exista verdadeiramente.

Valorizemos o livro e as bibliotecas.

4 comentários:

Cristina Bernardes disse...

Gostei muito de ler esta sua reflexão sobre o livro de Humberto Eco. Gosto muito deste autor, adorei um dos primeiros livros dele "O Nome da Rosa". Em relação a esta obra, fiquei bastante curiosa e vou certamente ler com cuidado tendo em conta que para mim, os livros e os espaços de leituras, sejam elas bibliotecas ou outros, são fundamentais.

Carla Martins disse...

Assino embaixo! E Eco é mesmo admirável!

Beijos!

WhiteLady3 disse...

Sabia que os gatos eram bons para se ter nas bibliotecas, mas morcegos?!...

Nunca li nada dos autores, mas Eco desperta à muita a minha curiosidade. Um livro a manter debaixo de olho.

Lídia Valadares disse...

Como gosto desta troca de saberes que está sempre activa nesta comunidade de leitores! Mais um valioso contributo, com a recomendação deste livro e deste autor. Também sou fã do Umberto Eco, mas ainda não li este livro. Estou tentada a pedir-to emprestado, Isilda. A culpa é tua. Tu provocas-nos e, depois, o resultado é este: uma obsessão, não pelo fogo, mas pelo livro!
Adorei o teu comentário.
Um abraço.

Lídia