quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Menina que sorria a dormir

Vou falar-vos de um livro que me deixou fascinada: A menina que sorria a dormir, de Isabel Zambujal.

Comecei por ficar curiosa com o título. Sorria a dormir?! Porquê? Usei um dos direitos do leitor, prescritos por Daniel Pennac no seu livro “Como um romance”, e comecei a “debicar” o livro aqui e ali, encontrando passagens que me agradaram imenso e me impeliram à sua leitura completa. Conta-nos a história de uma menina, a Glória, que vivia numa aldeia pequena e com poucos habitantes. Era uma menina igual a tantas outras, mas tinha uma dificuldade: não conseguia dormir sem ser embalada por histórias. Quando alguém parava de contar a história, fosse a que horas fosse, a menina abria imediatamente os olhos e dizia, sorridente: “- E depois, e depois?”. Ora, apesar de amor de mãe ser infinito, não há mãe que aguente noites inteiras e seguidas a contar histórias. Então, todos os habitantes da aldeia, num verdadeiro espírito solidário, cooperativo e comunitário, contribuíram para que a Glória tivesse um sono feliz e descansado, ou seja, seguindo uma escala elaborada pela professora daquele local, cada habitante, várias vezes por mês, passava a noite acordado a contar histórias à menina.

     O pai, que vivia muito longe, também lhe contava histórias, através de cartas, que a faziam viajar por terras distantes. Era o único que lhe contava histórias de viagens. Cada habitante tinha experiências de vida e gostos de leitura diferentes, portanto cada um tinha o seu tipo de histórias preferidas. Uns contavam fábulas, alguns, adivinhas, outros, histórias de reis e de princesas ou histórias doces…

     Só que esta situação estava a tornar-se insustentável para os habitantes da aldeia que, apesar de gostarem muito da menina, começavam a sentir o peso do cansaço acumulado de muitas noites em branco. Até que, um dia, Glória recebeu do pai um presente especial: uma caixinha e, no seu interior, uma menina que parecia uma princesa, deitada sobre um montinho de algodão branco e fofo como as nuvens. O bilhete que a acompanhava explicava que era uma “Fadinha de Olhos Fechados” e que a tinha descoberto num lugar onde as pessoas dormem a ouvir histórias, só que ninguém precisa de ficar acordado, pois todos os habitantes têm uma “Fadinha de Olhos Fechados a viver dentro da sua almofada. A Fadinha gosta de passar as noites a sussurrar histórias ao ouvido de quem dorme. A essas histórias chamam-lhes sonhos.” (p. 34).

     O que aconteceu em seguida? Ah, isso eu não conto! Leiam o livro e deliciem-se.

     Este livro fez-me lembrar um provérbio africano que diz o seguinte: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.” Quanta verdade e sabedoria ele encerra! Não tenhamos dúvidas de que é preciso uma “aldeia inteira”, ou seja, toda a Comunidade, para educar uma criança: Família, Escola, Sociedade, devem congregar esforços e articular estratégias, em prol da educação dos seus jovens. O resultado será compensador, altamente gratificante, como espelha esta história.

     E, para finalizar, só queria expressar um desejo: Que nunca deixemos de ouvir o sussurrar da nossa “Fadinha de Olhos Fechados” e nunca percamos a capacidade de sonhar e, até, de envolver os outros nos nossos sonhos, pois se alguns são pessoais, muitos outros poderão ser colectivos e abranger a nossa “ALDEIA”.

     É evidente que este livro, lido por uma criança ou um jovem, pode ter outras leituras, cada leitor faz a sua, pois “Se o texto é obra do autor, a leitura é uma actividade de reconstrução da significação por um leitor que lê o texto à luz do seu universo de referências” (Fernando Azevedo, Formar Leitores). Contudo, apesar de diferentes, as suas leituras não serão menos válidas, nem menos interessantes.

Lídia Valadares

5 comentários:

Carolina disse...

Eu li este livro com a minha mãe e gostei muito. beijocas para a professora lídia

Cristina Bernardes disse...

Pois é ...finalmente encontrei um livro infantil que li em primeiro do que a Lídia.

Este foi um daqueles que lemos em família. Foi muito giro, porque discutimos sobre as ilustrações, sobre as histórias, foi realmente muito divertido.

Adorei a associação que fez ao provérbio africano "É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança".

Não só uma grande verdade como é exactamente o que acontece neste conto.

Isabel Preto disse...

Usei esse provérbio para uma acção de Formação sobre indisciplina e estratégias de resolução de conflito. De facto, é preciso que todos se unam em torno da criança, para construir alguém com personalidade firme, plena de valores!
Quanto ao livro, é mesmo uma delícia! Realmente, faz lembrar esse provérbio.
Vou aproveitá-lo para apresentar o trabalho da formação.

isilda disse...

Nesta aldeia global, o livro vem mesmo a propósito. É com obras como esta que todos nós aprendemos e nem que não queiramos, não conseguimos deixar de pensar.
Eu já o conhecia e acho-o um livro que pode ser lido dos 8 aos 80, por aqueles que apenas lêem por fruição, ou para passar tempo, mas sobretudo para quem educa.
Em todas as leituras temos sempre todas as faces. A arte está em saber dar-lhe o caminho exacto e que nos permita ser um norte bem orientador de consciências e de afectos.

Isilda

Betita disse...

Li este livro à minha filhota antes de ela aprender a ler e agora que já sabe é um dos que ela relê com frequência!
Há pouco tempo ela leu-o à minha Avó que ficou deliciada e de vez em quando já pede para ouvir de novo a história!
Bjt e boas leituras