sexta-feira, 26 de junho de 2009

A nuvem ou o sonho de ser almofada

«O sol brilhava alto no céu quando as primeiras nuvens começaram a aparecer no horizonte. Cinzentas e brancas, rebolavam as nuvens, umas sobre as outras, brincando com o vento, com risinhos e gargalhadas. Oceana olhava para as suas irmãzinhas com carinho e doçura, mas já cansada da brincadeira.
Oceana era uma jovem nuvem, empenhada na escola “Nubelina”. Aprendera empenhadamente o ciclo da água, quais os dias em que deveria de pingar, chover ou fazer trovoada sobre a terra. Como qualquer outro trabalho escolar, Oceana ouvia tudo o que lhe era explicado com extrema paixão porque sabia o quanto a terra e os seus seres vivos dependiam dela, das suas irmãs, dos seus irmãos… e do resto de toda a sua família.
No entanto, Oceana não era totalmente feliz, no fundo do seu coração, a tristeza por vezes vencia; sempre achara que a sua missão não era só aquela, apesar de ser muito importante. Muitas das suas gotinhas caíam sobre a terra para alimentar o chão onde eram depositadas sementes pelos agricultores, para regar a relva e as flores dos jardins, para ajudar o pintassilgo a tomar o seu banho semanal. Muitas vezes, as suas gotinhas molharam homens e mulheres atarefados na sua vida rotineira, ensoparam crianças ao sair da escola ou encharcaram o cãozinho que dormia na soleira da porta da casa amarela.
A noite caía, Oceana continuava, como todas as noites, a vaguear pelo céu com a sua família; nómadas a percorrer o mundo em busca de terras secas para alimentarem. Quando a lua ia alta, descansavam aconchegadinhas umas às outras, muitas vezes sob o olhar dos astros, pedindo desejos às estrelas cadentes.
“Eu queria tanto ser uma almofada.” Desejava Oceana secretamente, na esperança de sentir a cabeça de uma criança no seu regaço.
O sono chegou. Oceana adormeceu, pingando devagarinho sobre as terras de Portugal.
O sol voltou a brilhar no céu. Oceana abriu os olhos, os seus pingos não caíam mais sobre a terra… assustou-se ao ver-se deitada em cima de uma relva verdinha de um lindo jardim florido com rosas vermelhas, jasmins brancos e tulipas amarelas. O latido de um cão, que mais se parecia com uma ovelhinha malhada, fê-la tremer de medo. Oceana olhou para o céu, não viu nenhuma das suas irmãs, nenhum dos seus irmãos ou parentes, tinham seguido caminho… sem ela. Oceana caíra na terra!
Aterrorizada e sem perceber o que pudera ter acontecido, Oceana ouviu passos… Uma linda criança morena, com caracóis rebeldes aproximava-se dela. Nunca tinha visto uma criança de tão perto, apesar de muitas vezes as ter visto a brincar e a saltar, diversas vezes sonhara com elas e como poderiam brincar todos juntos. A criança aproximou-se e abraçou a nuvem que tremia de medo.
- Pára de latir, Branquinha, é só uma almofada branca… que cheira a chuva e a terra molhada.
Serena agarrou em Oceana com extremo carinho e levou-a para dentro de casa. A Branquinha parou de ladrar e o coração de Oceana sentiu-se reconfortado, começando a bater mais devagar. O medo estava a desaparecer.
Ao entrar à porta do orfanato “Sorriso da Estrela Cadente”, Serena mostrou a sua nova aquisição às crianças pequenas, grandes, morenas, loiras… felizes por viveram num espaço tão acolhedor como aquele que as recolhia. Serena aconchegava a sua nova descoberta junto ao peito; a nuvem branca sentia-se valorizada e preciosa naqueles braços tão pequeninos.
- Vou ficar com esta nova almofada. A minha, que já foi da Maria e antes fora da Carolina, está cansada dos meus sonhos e dos meus pesadelos.
Subiu apressadamente as escadas, até ao segundo andar, entrou na bela camarata que partilhava com outras crianças pousou a linda almofada branca que cheirava a chuva em cima da sua cama. Pegou na sua antiga almofada e depositou-a ncesto da cadelinha, que logo se deitou e começou a dormir.
O cheiro a chuva pairava na camarata. Serena sorria de felicidade… foi então que Oceana percebeu: o seu desejo tinha-se cumprido; a nuvem branca era agora uma bela e fofinha almofada que caíra na relva daquele orfanato para ajudar Serena.
-Tenho uma nova almofada! - Murmurava Serena.
Todas as crianças estavam felizes e sorriram com a Serena.
Oceana sentiu uma gotinha a cair na cama.
“Nunca mais vais ter pesadelos, prometo-te Serena!”»

E porque eu também gosto de escrever... da minha autoria... espero que gostem!

6 comentários:

Lídia Valadares disse...

Parabéns, está fantástico, excelente! Adorei a história bem estruturada,criativa,estimulante a mensagem atenta aos mais necessiados,ao papel da natureza, a escrita fluida,com pormenores aliciantes. Achei os nomes esplendidamente escolhidos ("Serena", "Oceana","Nublina", "Sorriso da Estrela Cadente")e, claro, também não me passaram despercebidos os nomes lindos de Maria e Carolina!...
Li, reli, saboreei e... adorei!
Fico a aguardar o próximo.Serei uma leitora atenta. Também já sei quem adorou (as filhotas, claro!)
Beijinhos.

Lídia Valadares

Cristina Bernardes disse...

Obrigado Lídia... Vindo de uma pessoa que escreve histórias lindas e tão competente ao nível Língua Portuguesa, é um elogio muito bom para mim... OBRIGADO:O)

Lídia Valadares disse...

Só queria acrescentar algo que ontem me esqueci de dizer (devido ao adiantado da hora), mas que senti... sim, depois de ter lido o conto e enquanto "dialogava" com ele, senti cairem sobre mim,suavemente, algumas gotinhas de carinho,de sensibilidade, de incentivo à solidariedade, à intervenção na sociedade, a um olhar atento sobre os outros... E agradeci à "nuvem" que fez cair estas gotinhas.
Um abraço apertado.

Lídia Valadares

Beatriz disse...

Que história tão linda e ternurenta. Óptima tanto para crianças como para pessoas mais velhas. Adorei, imaginei logo o livro e as suas ilustrações. :)

Out of the blue disse...

Que história linda, doce, serena... sente-se em cada palavra um amor imenso, pelas crianças, pela natureza, pela vida! Adorei, espero por mais "histórias" assim porque a "ternura" nunca é demais na nossa vida...!

O meu olhar disse...

:) sem palavras! Parabéns!