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segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Gato e o Escuro

É um livro fascinante, bem ao jeito de Mia Couto, inventor e artífice de palavras, explorador de sonhos, autor de uma escrita criativa, dono de um estilo muito próprio, que dá ao texto um sabor fantástico. “O Gato e o Escuro” atesta a originalidade e o poder criativo deste autor e delicia-nos com a sua maneira singular de contar histórias. Este conto, normalmente orientado para um público infanto-juvenil (eu diria para todas as idades), fala-nos de um gato amarelo, às malhas e às pintas, o Pintalgato, que, um dia, ficou completamente preto, pagando, assim, o preço da desobediência. Ora, Mia Couto conta-nos essa “trespassagem” de uma forma fantástica, ou não fosse o onírico, o sonho, uma constante na obra miacoutiana. Leia-se, a este propósito, um livro excelente sobre a obra deste autor, intitulado “O Fantástico nos contos de Mia Couto”, de António Martins, Papiro Editora, que nos proporciona um profundo e saboroso conhecimento deste autor moçambicano. Mas, como dizia, esse gatinho adorava passear na “linha onde o dia faz fronteira com a noite”. Embora sua mãe, receosa, lhe dissesse que nunca atravessasse para o lado de lá, “além do pôr de algum Sol” (repare-se na beleza desta metáfora que simboliza o desconhecido, o perigo), ele fingia obediência, mas a tentação era grande… “Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam”. Achei esta expressão transcrita fabulosa, pela ponte que estabelece com as nossas vivências e pelo potencial semântico que os verbos encerram. Quem não se sente atraído por namorar o interdito? Quem não sofre as consequências de cair nas teias da desobediência? E atentem na carga expressiva e capacidade fotográfica do vocábulo “pirilampiscavam”. A sensação visual é poderosa, única!

O gatinho foi ganhando mais confiança e coragem e, um dia, não resistindo à atracção, passou para o lado de lá, “onde a noite se enrosca a dormir”. Quando “ousou despersianar os olhos” (notem como esta expressão empobrece o sentido da sinónima “abrir os olhos”) e viu que tudo era preto, inclusive ele, desatou a chorar, aflito e amargurado. Depois de um encantador diálogo entre o gatinho e o escuro, que mais parecia um desfile de queixas sobre as suas sortes e condições, apareceu a mãe do gatinho. O escuro lamentou-se que era feio e que todos os meninos tinham medo dele. A Dona Gata consolou-o, argumentando que os meninos não sabiam que “o escuro só existe é dentro de nós”. “Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos.” “Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos” – diz a gata ao escuro. Este diálogo encantador, construído de uma forma aparentemente singela, ilusoriamente pueril, mas incontestavelmente soberba, conduz-nos a um inevitável exercício de introspecção. Este momento magnífico tem o condão de nos fazer dialogar com as nossas vivências, de nos fazer reflectir e ler o mundo!

Continuem a ler o conto e deliciem-se com a beleza das personificações, a excelência das metáforas, a criatividade dos neologismos, a singularidade da escrita e a arte que está presente ao longo de todo o texto…

E vou terminar este comentário, partilhando convosco algumas reflexões que um artigo da revista “Notícias magazine”, de 19 de Abril, 2009, intitulado “O livreiro que queria ser pirata”, de Fernanda Pratas, me suscitou. Tinha como base uma entrevista realizada a Pep Duran, catalão, com 64 anos, formado em engenharia electrónica, mas que se tinha feito livreiro, terapeuta e contador de histórias. Tinha-se especializado em ler álbuns ilustrados ao público infantil e também aos adultos. Considera este entrevistado que “As palavras lidas, ou contadas, esclarecem o nosso viver o mundo”. E é na qualidade de livreiro que afirma que “cada pessoa encontra os seus próprios livros”. Contudo, também pensa que, num universo de tantos, nem sempre é fácil descobrir os que nos interessam e, ao livreiro, compete acompanhar cada leitor nessa descoberta.

Pois eu penso que também nós, professores, pais, podemos desempenhar um papel muito importante no acompanhamento dos nossos alunos/filhos, no âmbito dessa descoberta.
E, já agora, seria interessante reflectirmos sobre aquilo que nos leva a encontrar os nossos próprios livros. Creio que pode haver múltiplas razões: comentários, apreciações, críticas, partilhas, recomendações…

No caso de Mia Couto, quem me seduziu para a leitura deste escritor foi o colega e amigo António Martins, já atrás referenciado, que em muito contribuiu para a minha descoberta e apreço deste autor. Também não posso deixar de mencionar a colega e amiga Isilda Afonso, que me deu a conhecer “Os sete sapatos sujos”que Mia Couto, numa magnífica intervenção no ISCTEM, considerou que precisávamos de descalçar à soleira da porta da modernidade. Segundo o mesmo afirmou, escolheu sete, pois é um número mágico, mas haveria muitos mais. Numa belíssima metáfora, Mia Couto refere-se aos defeitos, às vicissitudes, aos preconceitos da época actual e à urgência de os deixar à porta, de mudar de atitude, para se conquistar uma condição melhor. Aqui e mais uma vez, não esqueceu a realidade africana, a visão crítica para dentro do seu país. Vou deixar-vos com algumas expressões que seleccionei, da parte final da sua intervenção, e que julgo serem um bom mote de reflexão:

“A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós.” (…) “Teremos mais e mais orgulho em sermos quem somos: moçambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os sete mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva.” (Mia Couto, Oração de Sapiência, na abertura do ano lectivo no ISCTEM)

Lídia Valadares

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Fantástico nos Contos de Mia Couto

As nossas queridas Amigas, Lídia e Isilda fizeram mais uma apresentação.
Sei que foi "fantástica"...

Já tenho o livro, prometo que vou ler.
Parabéns ao colega António Martins que no passado dia 28 de Março fez a apresentação pública do livro O Fantástico nos Contos de Mia Couto, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lamego.

A obra O Fantástico nos Contos de Mia Couto possibilita o elo entre o real e o imaginário e impulsiona o conhecimento a horizontes culturais diversificados.

terça-feira, 31 de março de 2009

Raíz de Orvalho e outros Poemas

Sinopse: "Mia Couto habituou o leitor à sua escrita aglutinada, justaposta, criadora e inovadora, musical, intensa, profundamente meiga e crua, poética. Dialoga com o leitor com a maior das intimidades, numa quase perfeita sintonia. Raiz de Orvalho e Outros Poemas é uma recolha de poemas com datas diversas, com temas diversos, com um conjunto de novos poemas (todos da década de 80) e selecção de outros que faziam parte da edição moçambicana, publicada em Maputo, em 1983, com o título Raiz de Orvalho. Segundo o próprio autor, alguns não resistiram ao tempo, noutros ele próprio não se reconhece já. Mas todos estes versos fazem parte do seu percurso. E daqui ele partiu a desvendar outros terrenos. Terrenos que afortunadamente hoje podemos conhecer. Mas (e ainda segundo o próprio Mia), se sem esta escrita nunca teria experimentado outras dimensões da palavra, nós nunca poderíamos ter partilhado da beleza comovente das imagens, da música doce e profunda dos vocábulos, da palavra certa que só ele encontrou e que tantas vezes quisemos ser nós a dizer, das cores profundas e intensas das emoções. Esta é uma poesia única, de alegria, de desespero e de amor, de solidariedade e humildade, de qualidade rara, porque sentida e escrita e lida à flor da pele. Uma experiência enriquecedora para quem a partilha. Um privilégio para quem nela se fundir. Ler Mia Couto é sentir, viver, regressar às próprias raízes do mundo, uma espécie de exploração da natureza humana na sua relação umbilical com a terra."

Ler Raiz de Orvalho é estar num constante para além da escrita, da palavra em busca do transcendente, da essência do mundo. Apesar do poeta acreditar que “nenhuma palavra/ alcança o mundo”, ele “ ainda assim,” escreve…

A ligação antitética da raiz (terra) e orvalho (céu) concedem à escrita/palavra outras dimensões… Porém cada palavra foi inventada com o genuíno poder de apenas lhe conferir um só sentido, como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada em seu lugar. Através da leitura, vivi grandes emoções, onde se entrecruzaram uma dicotomia de emoções, senti e ouvi a melodia da palavra…
Uma sintonia sublime entre o eu e a palavra.
Nota: 8/10
Ana Lúcia Baptista

segunda-feira, 2 de março de 2009

Venenos de Deus, Remédios do Diabo

Sinopse: "O jovem médico português Sidónio Rosa, perdido de amores pela mulata moçambicana Deolinda, que conheceu em Lisboa num congresso médico, deslocou-se como cooperante para Moçambique em busca da sua amada. Em Vila Cacimba, onde encontra os pais dela, espera pacientemente que ela regresse do estágio que está a frequentar algures. Mas regressará ela algum dia? Entretanto vão-se-lhe revelando, por entre a névoa que a cobre, os segredos e mistérios, as histórias não contadas de Vila Cacimba – a família dos Sozinhos, Munda e Bartolomeu, o velho marinheiro, o administrador, Suacelência e a sua Esposinha, a Misteriosa mensageira do vestido cinzento espalhando as flores do esquecimento."

Quando comprei este livro foi essencialmente pela sua capa e pelo seu título controverso, não tinha lido nada que me despertasse a atenção para o adquirir.
Comprei-o simplesmente...

De início, achei a história estranha, demorei algumas páginas até entrar dentro do texto... mas a verdade é que em poucas horas li o romance todo.
A partir do meio do livro, os acontecimentos sucedem-se surpreendentemente. Não estavam certamente na minha lista de eventos possíveis ou plausíveis. Agradou-me sobretudo por esse aspecto, a imprevisibilidade que surge nos últimos capítulos. Existem para nós leitores assíduos, histórias que, com mais ou menos rigor conseguimos, sem desvalorizar nenhum livro, antecipar os factos ou as reacções das personagens.

Para quem quer ser surpreendido, leia este livro; não é um dos meus favoritos, não foi paixão, mas dou-lhe crédito por me ter surpreendido com uma história de amor deveras "estranha".
"Uma coisa aprendi na vida. Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz." p.35
"Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso." p. 113
"Talvez seja a espessura desse céu que faz os cacimbeiros sonharem tanto. Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco." p.155
Nota:8/10

domingo, 25 de janeiro de 2009

O VALOR ACTUAL DA NOSSA LÍNGUA

Eureka!... Até que enfim há uma notícia que nos alegre. Ufa!
Nestes dia sombrios, chuvosos, melancólicos e nada risonhos, tudo nos angustia e tudo o que há de mau na sociedade, ou na nossa vida, aparece de uma forma inesperada.
Ora, decidi iniciar a leitura do jornal Expresso, na esperança de ler algo que me alegrasse ou enriquecesse a minha culturazita. E não é que aconteceu? Tenho de partilhar convosco. Na página 23 do caderno principal (Expresso, 24/01/2009), o título e os bonequinhos coloridos obrigaram o meu "olho clínico" a ler, observar e até a reler. Nem queria acreditar. O título é: "Português, Quanto vale a língua?". Até a própria página está engraçada e bem concebida.
Nem tudo vai mal. Resulta esta notícia de um estudo europeu que conclui que "11% das pequenas e médias empresas na União Europeia perdem contratos em resultado directo da escassez de competências linguísticas...". E mais adiante continua: "O português já não é só uma língua de negócios. Está em expansão mundial...". Agora aprendi algo. Reparem: "Os especialistas chamam-lhe a língua megacentral (como o espanhol e o francês), logo a seguir ao inglês (hipercentral). Já somos 244 milhões e muitos querem aprendê-la, porque acham que vão necessitar dela no futuro: para trabalhar, viajar e comunicar (estudo divulgado pelo Instituto Camões). Até já adquiriu o direito a ser usada nos diálogos e instituições internacionais!
Adorei tudo isto! Como professora e cidadã do mundo da lusofonia, deu-me outro ânimo para o ensino (já que as competências que os nossos alunos apresentam deixam-nos de rastos e a família desatenta e inculta não se preocupa). Até vou falar neste estudo aos meus alunos. É que as 10 figuras mais famosas como falantes da língua lusa misturam actividades como o futebol (e não é a maior parte), a política, a música e a literatura (são 5, cerca de 50% da lista). Vou nomear por ordem crescente de importância, tal como são apresentados os resultados do estudo: Lula da Silva, Ronaldinho Gaúcho, Figo, Ronaldo, Cristiano Ronaldo, José Saramago, Fernando Pessoa, Camões, Cesária Évora e Mia Couto. Claro que o maior número de falantes está no nosso querido Brasil (191,6 milhões), a seguir vem Moçambique (21,4), Angola (17), Portugal (10,6) e depois Guiné-Bissau, Timor Leste, Cabo Verde e São Tomé. O estudo ainda conclui que entre 2000 e 2008, o português foi a segunda língua que mais cresceu, depois do árabe, nos utilizadores da Net.
Como professora e formadora, fiquei radiante com o facto de haver 5 escritores na lista e 3 deles contemporâneos. Os esforços dos professores têm sido reconhecidos, suponho eu, com estes resultados. Não é só a nossa influência enquanto transmissores do saber, mas também pelo facto de conseguirmos o gosto pela literatura. Com tudo isto, já me passou a melancolia. E como eu adoro Mia Couto, um dos laureados da lista e que, na minha opinião, será num futuro muito próximo um ícone da literatura de expressão africana, tenho de partilhar com esta comunidade de leitores (isto já vai sendo um vício) um poema que me veio às mãos da sua autoria. Espero que gostem, porqe ilustra o que está subjacente a este estudo, agora publicado. Além disso, eu sou moçambicana, amante das histórias de cunho oral de África e das palavras.
Tropecei no alfabeto logo ao nascer,
caí no verbo.
Invejei poetas, dizeres ímpares
Palavras seculares, versos românticos.
Invoquei-os.
Não ouvi respostas
Apenas o eco do silêncio.
Percebi então que faço melhor do que eles.
Aprendi a florir flores
A salgar o sal e a adoçar o doce com a entrega de palavras
Que ainda não nasceram,
As mesmas que me habitam a alma.
Aplaudi-me.
Percebi que melhor que ser poeta,
É ser palavra.
Mia Couto
O estudo pode ser complementado com a consulta ao Instituto Camões. Aí existem outras informações preciosas sobre a nossa língua, literatura e eventos da lusofonia. Espero que vos tenha dito algo de útil e que vos faça pensar.