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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Gaspar e Mariana

Esta obra de Maria Teresa Maia Gonzalez retrata, como é seu hábito (e quem já a lê há uns anos habituou-se a ver para lá das palavras), o valor da amizade, da solidariedade, do companheirismo, da compreensão, da esperança, da inocência, da simplicidade. Por outro lado, autora não se esquece de, sorrateiramente, abordar situações do quotidiano onde as problemáticas do alcoolismo, da falsa religião, do ensino sem significado, da família desestruturada e da falsidade nas relações humanas coexistem, por muito que queiramos esconder com os valores humanos que aí sobressaem.

Mariana é uma menina cega, que não sai de casa, não conhece o mundo, não percebe o significado das palavras, dos sentimentos. A sua mãe trabalhava durante o dia numa fábrica, o seu pai “que gostava do mar, não o temia e até ficou lá, quando era pequenina…foi e não voltou mais…porque gostava muito dele e quis lá ficar (p. 80)”. Só Gaspar lhe fazia companhia e tudo lhe explicava, com a maior simplicidade, com a compreensão de um autêntico irmão. É ele quem lhe oferece um cãozito, o Camisolinha, que irá ser o seu companheiro quando Gaspar desaparece da sua vida.

Não irei desvendar mais sobre este livro, recomendado pelo Plano Nacional de Leitura. É uma obra que merece ser lida e bem reflectida, pois as palavras e as situações aí retratadas deixam-nos a pensar e a imaginar o que será o mundo às escuras e como se consegue explicar a alguém conceitos e ideias tão abstractos, quando não se possui visão. Há um encontro entre dois mundos: o do Gaspar e o da Mariana. Muitas pessoas deveriam conhecê-lo e aprenderiam a entender as vivências, dificuldades e agruras da sociedade, através de belos diálogos entre duas crianças.
Reparem neste segmento do texto:

“- Ouve lá, Gaspar, como é que é o azul?
-O azul?
- Sim, a cor do céu. Como é?
- Bom, o azul…é fofo, assim como o tapete que está ao pé da tua cama; parece que sopra e voa; o azul está no ar, quando faz sol, no Verão…
- Ah… estou a perceber. O azul é levezinho.
- É, é muito leve, assim como se eu soprar devagarinho na tua mão… (p. 51).”

segunda-feira, 2 de março de 2009

Lullaby, um hino ao mar, à compreensão

Jean-Marie Le Clézio, prémio Nobel da Literatura 2008, surpreendeu-me há poucos meses a propósito de uma pequena crónica, num dos nossos semanários.
Descobri alguém que é merecedor de um prémio de tal gabarito. E digo-o porque li Lullaby. O título é este, simplesmente. Lê-se de um fôlego, mas de quando em vez faz-nos pensar, faz-nos retroceder na leitura para apreciarmos a beleza do discurso, a sonoridade das palavras e o íntimo das personagens, que nos é apresentado sem darmos conta, subtilmente e de forma bem realista.

Esta menina, Lullaby, decidiu, um dia, não ir à escola, mas sim ir ver o mar. Ela sabia que isso lhe iria trazer muitos dissabores na escola e na família, claro. Mesmo assim a ânsia, a necessidade de estar perante o mar era mais forte. Durante alguns dias assim aconteceu. As delícias da contemplação, da descoberta, das recordações, da presença de um menino que a despertou para certos aspectos do mar e de uma casa abandonada, foram sequências descritivas que nos obrigam, nós leitores, a criar uma imagem idílica e de filme nostálgico, que nos envolve e nos fascina.

Reflectindo sobre toda a obra, Lullaby era alguém que necessitava de um amigo, de uma família e a escola nada lhe dizia. É no mar que ela descobre a luz, a evasão, o seu verdadeiro eu, o encontro consigo mesma. Aquela liberdade de pisar, molhar, olhar, saborear a maresia, escorregar pelas rochas e ... sonhar, era tudo o que ela desejava.
Mas era necessário regressar à escola. Quando aí chegou, a Directora não a compreendeu. Ameaçou-a, acusou-a de abandono dos estudos por causa de um namoradinho, sem dialogar, sem saber ouvir Lullaby. No entanto, é o seu professor Filippi, de Física, com quem ela tanto desejava falar, que a vai compreender, aceitar. Ao perguntar-lhe se tinha feito uma viagem, durante aqueles dias, ela diz-lhe que tinha ido ver o mar e tinha muitas questões a colocar-lhe. Ele concorda e conclui dizendo-lhe que também ele adorava o mar. Lullaby ficou na aula.
Este professor teve a resposta que ela esperava. O único que a compreendeu, que a ouviu e não a censurou. O mar foi o elemento de união, de compreensão.

Esta narrativa é um hino ao mar e à compreensão de que o mundo anda tão esquecido. Nos dias de hoje impera a incomunicação. Às vezes, basta uma palavra ou pequena expressão (um clic) para que todo o diálogo aconteça e tudo se solucione.

"Le plus important c'est la mer: elle recouvre, efface toute chose" (O mais importante é o mar: ele esconde, faz esquecer tudo) - é a frase com que termino e que consta da contracapa. A metáfora serve para todos nós.

Nota: Lullaby, em inglês signifiva canção de ninar. Não foi por acaso que Le Clézio escolheu este título. Lullaby, uma jovem que mais não desejava do que ouvir a bela canção do mar e deixar-se embalar, esquecer, deambular, tal como as mães fazem aos seus filhos para os adormecer. É lindo...