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segunda-feira, 2 de março de 2009

Lullaby, um hino ao mar, à compreensão

Jean-Marie Le Clézio, prémio Nobel da Literatura 2008, surpreendeu-me há poucos meses a propósito de uma pequena crónica, num dos nossos semanários.
Descobri alguém que é merecedor de um prémio de tal gabarito. E digo-o porque li Lullaby. O título é este, simplesmente. Lê-se de um fôlego, mas de quando em vez faz-nos pensar, faz-nos retroceder na leitura para apreciarmos a beleza do discurso, a sonoridade das palavras e o íntimo das personagens, que nos é apresentado sem darmos conta, subtilmente e de forma bem realista.

Esta menina, Lullaby, decidiu, um dia, não ir à escola, mas sim ir ver o mar. Ela sabia que isso lhe iria trazer muitos dissabores na escola e na família, claro. Mesmo assim a ânsia, a necessidade de estar perante o mar era mais forte. Durante alguns dias assim aconteceu. As delícias da contemplação, da descoberta, das recordações, da presença de um menino que a despertou para certos aspectos do mar e de uma casa abandonada, foram sequências descritivas que nos obrigam, nós leitores, a criar uma imagem idílica e de filme nostálgico, que nos envolve e nos fascina.

Reflectindo sobre toda a obra, Lullaby era alguém que necessitava de um amigo, de uma família e a escola nada lhe dizia. É no mar que ela descobre a luz, a evasão, o seu verdadeiro eu, o encontro consigo mesma. Aquela liberdade de pisar, molhar, olhar, saborear a maresia, escorregar pelas rochas e ... sonhar, era tudo o que ela desejava.
Mas era necessário regressar à escola. Quando aí chegou, a Directora não a compreendeu. Ameaçou-a, acusou-a de abandono dos estudos por causa de um namoradinho, sem dialogar, sem saber ouvir Lullaby. No entanto, é o seu professor Filippi, de Física, com quem ela tanto desejava falar, que a vai compreender, aceitar. Ao perguntar-lhe se tinha feito uma viagem, durante aqueles dias, ela diz-lhe que tinha ido ver o mar e tinha muitas questões a colocar-lhe. Ele concorda e conclui dizendo-lhe que também ele adorava o mar. Lullaby ficou na aula.
Este professor teve a resposta que ela esperava. O único que a compreendeu, que a ouviu e não a censurou. O mar foi o elemento de união, de compreensão.

Esta narrativa é um hino ao mar e à compreensão de que o mundo anda tão esquecido. Nos dias de hoje impera a incomunicação. Às vezes, basta uma palavra ou pequena expressão (um clic) para que todo o diálogo aconteça e tudo se solucione.

"Le plus important c'est la mer: elle recouvre, efface toute chose" (O mais importante é o mar: ele esconde, faz esquecer tudo) - é a frase com que termino e que consta da contracapa. A metáfora serve para todos nós.

Nota: Lullaby, em inglês signifiva canção de ninar. Não foi por acaso que Le Clézio escolheu este título. Lullaby, uma jovem que mais não desejava do que ouvir a bela canção do mar e deixar-se embalar, esquecer, deambular, tal como as mães fazem aos seus filhos para os adormecer. É lindo...