quinta-feira, 23 de abril de 2009

Três pequenas histórias

Umberto Eco é um autor genial, quer para adultos, quer para crianças. Foi ao folhear um livro dele numa livraria, destinado a crianças, que resolvi adquiri-lo, e não estou nada arrependida.

Chama-se a obra "Três Pequenas Histórias", publicada pela editora Caderno, reunidas para ilustrar que alguém tão atento à filosofia, à sociologia, ao mundo, consegue entrar no mundo das crianças.

São apenas três histórias, mas dizem muito e dizem tudo sobre a natureza do ser humano. Elas tocam em temas do quotidiano, partindo de desenhos e de segmentos das histórias que colocam as crianças motivadas até ao fim da sua leitura.

As temáticas são a guerra, em "A bomba e o general", a par do desejo desmesurado daqueles que, para terem protagonismo, decidem construir bombas para lançarem sobre as cidades. Mas o general acaba por aprender uma lição, quando as pessoas e as crianças fazem nascer flores a partir dessa bombas. É assim que o general deixa de ser importante. Uma lição para os poderosos e para aqueles que acham que o mundo é apenas deles.

Na segunda história, "Os três cosmonautas", aborda-se a temática da xenofobia, da interculturalidade. Apesar do encontro dos cosmonautas de nacionalidades diferentes com os marcianos no espaço e não conhecerem as línguas, tudo fica resolvido, mesmo quando os gostos são diferentes, os aspectos, os hábitos, etc... No final o narrador conclui: "Tinham compreendido que na Terra, como nos outros planetas, cada um tem o seu próprio gosto, é apenas uma questão de se aceitarem as diferenças"(p.74). Mas é uma história que pode ser uma motivação para as actividades do Ano Internacional da Astronomia. Ensina e nutre o gosto pelo espaço, pelo universo. Fascina!

Na terceira história, "Os GnOMos De gNU", surge o problema da poluição da Terra criticada pelos gnomos e uma crítica aos responsáveis dos países que não querem ver o que se passa à sua volta. Reparem: "E enquanto falava, o ministro escorregou numa pastilha elástica que um outro ministro tinha cuspido para o chão. Partiu as pernas, esmagou os lábios, o queixo, as duas narinas, o ombro, a testa e ficaram-lhe os dedos presos nas orelhas, de tal maneira que não conseguia endireitar-se. Na grande confusão que se seguiu, o ministro foi deitado no passeio no meio dos sacos de imundície que já ninguém recolhia há muito tempo, e ficou ali a encher-se de fumo, respirando as exalações que saíam dos escapes das máquinas" (p. 108). Vão ser os gnomos que irão resolver a situação e dar sugestões aos humanos para resolverem os problemas ambientais.

É uma obra que é essencialmente pedagógica, transmite ideias e conceitos bem actuais, a explorar em várias áreas e consegue provocar o diálogo, pois põe os alunos a reflectir, a trocar ideias e lança desafios. É assim que nasce a verdadeira cidadania.

Umberto Eco é apelidado de "fabricante de palavras" pela sua faceta de contista, acompanhado por desenhos de um pintor, Eugenio Carmi, um "fabricante de imagens". Quem ler o livro irá ser, com toda a certeza, um "fabricante de mentes sãs".

Isilda Lourenço Afonso

Histórias escritas na cara - Cada avó é um livro de contos

Este é um livro que nos fala de histórias de vida que o tempo vai deixando gravadas nos rostos de cada um, das valiosas bibliotecas que são as avós, tantos são os livros que as páginas das suas vidas já escreveram e que estão prontos para ser lidos, contados, ouvidos…
Começa por nos contar que, duas vezes por ano, Clara e os pais iam para casa da avó materna, no Sul do país, num lugar com o nome curioso de Suspiros. “Clara mal conseguia controlar a emoção, sabia que quando regressasse de Suspiros ia sentir-se como se tivesse uma biblioteca dentro da cabeça, tantas eram as páginas da vida que a avó lhe contava”(p. 12).

Uma das histórias que Clara nunca se cansava de ouvir era a do nome da aldeia, para a qual havia duas versões. “Mas as histórias que Clara mais gostava de ouvir eram daquelas que estavam escritas no rosto da avó: por curtas ou compridas linhas junto aos olhos, perto da boca ou na testa…” (p.16) Gostava de ouvir a origem daquelas marcas que falavam de emoções, sentimentos, memórias agradáveis ou desagradáveis, alegres ou tristes…

Eu também gostei! São episódios breves, mas fascinantes. Daqueles que dizem mais pelas reflexões do que pelas palavras. Tocou-me, especialmente, o episódio associado à ruga na testa da avó. Porquê? Talvez porque, como disse Stendhal, “Um romance é como o arco de um violino, a caixa de ressonância é a alma do leitor.” E esta ruga fez vibrar intensamente a minha caixa de ressonância. Aquela ruga chamava-se Ernesto e falava de um terramoto que tinha havido no dia em que a avó fazia doze anos e a família, em vez da festa de “Parabéns”, começara a organizar meios para ajudar os mais afectados. A avó e as primas gémeas tinham ficado responsáveis por arranjar roupa, muitos tinham ficado, apenas, com a que traziam no corpo. “O frio estava a chegar e depois de o chão ter tremido iam tremer muitos dentes.” (p.23). O ajudante deste grupo era o Ernesto, um rapaz de nove anos, extremamente pobre. Incansável, sem nunca desistir, batia à porta das casas que ainda existiam e pedia mantas, casacos, calças, sapatos… (Quanta persistência, força, sensibilidade e solidariedade se descobre nos menos favorecidos!) Mas não havia roupa nem calçado suficiente para tanta gente, porém Ernesto não desanimava e dizia: “Menina, pé de pobre não tem número. E pobre não troca de roupa, a roupa é que troca de pobre. Vai primeiro para o irmão pobre, depois para o primo pobre, depois para o neto pobre, e assim por diante, até a roupa já não perceber se nasceu camisola ou cachecol”. E no meio daquela pobreza, o franzino Ernesto, sem nunca saber, ensinou-me uma lição valiosa: nós temos quase sempre mais do que aquilo de que precisamos.” E este excerto provocou em mim uma ressonância tão aguda que quase me magoava a alma, tal era a verdade que ecoava em vibrações prolongadas.

Mais à frente, uma expressão deixou-me deliciada pela criatividade e beleza estilística, fiquei a saboreá-la durante muito tempo e não resisto em partilhá-la convosco: “A Antonieta devia ter uns cinco anos, ainda não era cega e nunca mais me esqueço do seu comentário, um dia enquanto o Sol se punha: Já viste, mana, o Sol adormece no mar e as ondas são os cobertores.”

Outras rugas contaram as suas histórias e, no final, depois de fechar o livro, já sem palavras à frente dos olhos, continuei a ler histórias, aquelas cujo enredo brota das nossas meditações, das nossas vivências, das nossas conclusões, das nossas próprias rugas…

É um livro pequeno, escrito numa linguagem singela, mas bonita, que nos conta episódios curtos, de absorção fácil e rápida, contudo deixa-nos muito tempo a prolongar a leitura, a ouvir o eco, as vibrações das suas palavras…

Vou deixar-vos com um desses ecos.
“Cada avó é um livro de contos”.
Lídia Valadares

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Dia Mundial do Livro: Ler é Prazer

«O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo “amar”...»

Daniel Pennac, Comme un Roman

"Un livre à lire absolument, pour le contenu, pour le style de Pennac, pour tout. Plaisir garanti ! Et en finir avec la mauvaise conscience du lecteur qui lit par obligation un livre qu'il n'aime pas ! Si le livre nous tombe des mains, eh bien, laissons le tomber tout simplement !!! Ah quelle maxime ! Comment n'y a-t-on pas pensé soi-même. Lire est un plaisir, et dès qu'on le découvre, on aime lire. C'est si simple, si évident ! Et tant pis pour la culture (??) c'est là encore le bonheur qui nous guide ! Merci monsieur Pennac !!!"

terça-feira, 21 de abril de 2009

Reflexão

"Somos aquilo que fazemos consistentemente. Assim, a excelência não é um acto, mas sim um hábito."
Aristóteles

Esta citação do filósofo grego Aristóteles anda a perseguir-me há alguns dias em vários documentos que ando a ler...

Tenho de a partilhar com os nossos amigos da Floresta; só assim irei perceber qual o motivo de aparecer tantas vezes nestes últimos dias.

:O)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Gato e o Escuro

É um livro fascinante, bem ao jeito de Mia Couto, inventor e artífice de palavras, explorador de sonhos, autor de uma escrita criativa, dono de um estilo muito próprio, que dá ao texto um sabor fantástico. “O Gato e o Escuro” atesta a originalidade e o poder criativo deste autor e delicia-nos com a sua maneira singular de contar histórias. Este conto, normalmente orientado para um público infanto-juvenil (eu diria para todas as idades), fala-nos de um gato amarelo, às malhas e às pintas, o Pintalgato, que, um dia, ficou completamente preto, pagando, assim, o preço da desobediência. Ora, Mia Couto conta-nos essa “trespassagem” de uma forma fantástica, ou não fosse o onírico, o sonho, uma constante na obra miacoutiana. Leia-se, a este propósito, um livro excelente sobre a obra deste autor, intitulado “O Fantástico nos contos de Mia Couto”, de António Martins, Papiro Editora, que nos proporciona um profundo e saboroso conhecimento deste autor moçambicano. Mas, como dizia, esse gatinho adorava passear na “linha onde o dia faz fronteira com a noite”. Embora sua mãe, receosa, lhe dissesse que nunca atravessasse para o lado de lá, “além do pôr de algum Sol” (repare-se na beleza desta metáfora que simboliza o desconhecido, o perigo), ele fingia obediência, mas a tentação era grande… “Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam”. Achei esta expressão transcrita fabulosa, pela ponte que estabelece com as nossas vivências e pelo potencial semântico que os verbos encerram. Quem não se sente atraído por namorar o interdito? Quem não sofre as consequências de cair nas teias da desobediência? E atentem na carga expressiva e capacidade fotográfica do vocábulo “pirilampiscavam”. A sensação visual é poderosa, única!

O gatinho foi ganhando mais confiança e coragem e, um dia, não resistindo à atracção, passou para o lado de lá, “onde a noite se enrosca a dormir”. Quando “ousou despersianar os olhos” (notem como esta expressão empobrece o sentido da sinónima “abrir os olhos”) e viu que tudo era preto, inclusive ele, desatou a chorar, aflito e amargurado. Depois de um encantador diálogo entre o gatinho e o escuro, que mais parecia um desfile de queixas sobre as suas sortes e condições, apareceu a mãe do gatinho. O escuro lamentou-se que era feio e que todos os meninos tinham medo dele. A Dona Gata consolou-o, argumentando que os meninos não sabiam que “o escuro só existe é dentro de nós”. “Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos.” “Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos” – diz a gata ao escuro. Este diálogo encantador, construído de uma forma aparentemente singela, ilusoriamente pueril, mas incontestavelmente soberba, conduz-nos a um inevitável exercício de introspecção. Este momento magnífico tem o condão de nos fazer dialogar com as nossas vivências, de nos fazer reflectir e ler o mundo!

Continuem a ler o conto e deliciem-se com a beleza das personificações, a excelência das metáforas, a criatividade dos neologismos, a singularidade da escrita e a arte que está presente ao longo de todo o texto…

E vou terminar este comentário, partilhando convosco algumas reflexões que um artigo da revista “Notícias magazine”, de 19 de Abril, 2009, intitulado “O livreiro que queria ser pirata”, de Fernanda Pratas, me suscitou. Tinha como base uma entrevista realizada a Pep Duran, catalão, com 64 anos, formado em engenharia electrónica, mas que se tinha feito livreiro, terapeuta e contador de histórias. Tinha-se especializado em ler álbuns ilustrados ao público infantil e também aos adultos. Considera este entrevistado que “As palavras lidas, ou contadas, esclarecem o nosso viver o mundo”. E é na qualidade de livreiro que afirma que “cada pessoa encontra os seus próprios livros”. Contudo, também pensa que, num universo de tantos, nem sempre é fácil descobrir os que nos interessam e, ao livreiro, compete acompanhar cada leitor nessa descoberta.

Pois eu penso que também nós, professores, pais, podemos desempenhar um papel muito importante no acompanhamento dos nossos alunos/filhos, no âmbito dessa descoberta.
E, já agora, seria interessante reflectirmos sobre aquilo que nos leva a encontrar os nossos próprios livros. Creio que pode haver múltiplas razões: comentários, apreciações, críticas, partilhas, recomendações…

No caso de Mia Couto, quem me seduziu para a leitura deste escritor foi o colega e amigo António Martins, já atrás referenciado, que em muito contribuiu para a minha descoberta e apreço deste autor. Também não posso deixar de mencionar a colega e amiga Isilda Afonso, que me deu a conhecer “Os sete sapatos sujos”que Mia Couto, numa magnífica intervenção no ISCTEM, considerou que precisávamos de descalçar à soleira da porta da modernidade. Segundo o mesmo afirmou, escolheu sete, pois é um número mágico, mas haveria muitos mais. Numa belíssima metáfora, Mia Couto refere-se aos defeitos, às vicissitudes, aos preconceitos da época actual e à urgência de os deixar à porta, de mudar de atitude, para se conquistar uma condição melhor. Aqui e mais uma vez, não esqueceu a realidade africana, a visão crítica para dentro do seu país. Vou deixar-vos com algumas expressões que seleccionei, da parte final da sua intervenção, e que julgo serem um bom mote de reflexão:

“A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós.” (…) “Teremos mais e mais orgulho em sermos quem somos: moçambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os sete mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva.” (Mia Couto, Oração de Sapiência, na abertura do ano lectivo no ISCTEM)

Lídia Valadares

domingo, 19 de abril de 2009

"Esperando o Sucesso": um quadro bem actual


Fui fazer uma visita de estudo com alunos do 3º ciclo, ao Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, para lhes dar a conhecer as obras notáveis que aí existem e que tanto representam o que de bom Portugal produziu e vai produzindo.

Fiquei encantada com os quadros, os pintores, as esculturas, as faianças, a ourivesaria e tantos outros aspectos que não vêm agora ao caso.

Ora, numa das salas, pude observar os trabalhos de um pintor para mim totalmente desconhecido, mas que me chamou a atenção. Ninguém deu por isso, mas comentei com a colega de História que aquele quadro que representava um menino com um desenho na mão, bem ao estilo infantil, simples, esquelético e apenas com uns traços representativos de um ser humano deveria significar algo. Fiquei intrigada e tentei documentar-me, já em casa, sobre este pintor e o quadro.

O pintor, Henrique Pousão e o quadro tinha o título de "Esperando o Sucesso". Logo este título me espevitou o olhar e a observação mais aturada.

É assim que nasce a investigação: da curiosidade. Ainda bem. Fiquei a gostar ainda mais.

"Esperando o Sucesso", obra realizada em Roma, em 1882, representa o interior do ateliê do pintor onde o modelo, uma figura popular de rapazinho romano, num momento de pausa da função de posar, exibe um desenho infantil. Ao fundo, vê-se uma representação imediata, primitiva ou inocente de um corpo humano.

Esta pintura, de 1882, é bem actual. Na minha opinião, é do desejo de alcançar o sucesso que tudo progride (desde que não seja nada de exagero e de atropelos a ninguém). Nada melhor para os nossos alunos e jovens observarem e reflectirem. Não basta esperar, é preciso agir e deitar mãos à obra, ou seja, estudar, trabalhar, esforçar-se para ter um dia o almejado sucesso. Não foi por acaso que Henrique Pousão, nascido a 1 de Janeiro de 1858, pintou este menino. Era ele próprio; o semblante envergonhado e o desenho que exibe querem transmitir-nos essa ideia: "eu vou conseguir ser um talento, desejo-o e estou a trabalhar para isso".

Este génio da nossa pintura, morreu muito jovem, apenas com 25 anos. Possui muitos outros e venho a descobrir que o meu gosto por este quadro tinha a sua razão de ser. Não sou só eu que o aprecio. Há muitos críticos e estudiosos de arte que o têm feito e este é o ano em que se estão a festejar os 150 anos do nascimento deste pintor, natural de Vila Viçosa.

Convido-vos a visitar a exposição deste pintor até ao dia 18 de Junho no Museu Soares dos Reis e, com toda a certeza, irão descobrir outros quadros bem expressivos e com aspectos interessantes da vida e das gentes portuguesas. Vale a pena apreciar e reflectir no porquê dos temas, das cores, das formas e dos pormenores. A arte ensina, educa e aproxima-nos. O sentido estético também se educa e não é efémero.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Fantástico nos Contos de Mia Couto

As nossas queridas Amigas, Lídia e Isilda fizeram mais uma apresentação.
Sei que foi "fantástica"...

Já tenho o livro, prometo que vou ler.
Parabéns ao colega António Martins que no passado dia 28 de Março fez a apresentação pública do livro O Fantástico nos Contos de Mia Couto, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lamego.

A obra O Fantástico nos Contos de Mia Couto possibilita o elo entre o real e o imaginário e impulsiona o conhecimento a horizontes culturais diversificados.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada

Como já sabem, não sou especialmente fã de poesia, a não ser que seja realmente de muito boa qualidade. Normalmente, só adquiro livros de poesia quando me são recomendados... e por pessoas em quem confio plenamente nos gostos literários.

Foi o que aconteceu com é um livro de poesia de Pablo Neruda, Vinte poemas de Amor e Uma Canção Desesperada; "onde se cruza o erotismo da poesia que celebra o corpo da mulher, com o gosto que Neruda tem pela natureza. Nestes poemas, é frequente que os dois planos se cruzem, havendo uma certa identificação entre o corpo feminino e o mundo natural (as paisagens, a terra...). Pablo Neruda escreveu estes poemas apenas com cerca de vinte anos, mas são alguns dos mais celebrados da sua obra." in wikipedia
Fiquei realmente surpreendida pela positiva, o livro que adquiri é bilingue, tendo o poema original em espanhol e o poema traduzido em português. A escrita deste poeta é surpreendente e fiquei muito satisfeita por me terem aberto mais este horizonte.
Corpo de Mulher
(Poema nº 1)
Corpo de mulher,brancas colinas,
coxas brancas,
assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega.
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.
Fui só como um túnel.
De mim fugiam os pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.
Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah, os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.
Recomendo também, tal como o fizeram comigo, "Uma Canção Desesperada".
LINDO :o)
É uma óptima obra para se ir lendo devagar, aprendendo assim a decifrar cada um dos poemas de Pablo Neruda.
Nota: 9/10

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Comer, Orar, Amar

Sinopse: "Elizabeth Gilbert estava com quase trinta anos e tinha tudo o que qualquer mulher poderia querer: um marido apaixonado, uma casa espaçosa que acabara de comprar, o projeto de ter filhos e uma carreira de sucesso. Mas em vez de sentir-se feliz e realizada, sentia-se confusa, triste e em pânico.
Enfrentou um divórcio, uma depressão debilitante e outro amor fracassado. Até que decidiu tomar uma decisão radical: livrou-se de todos os bens materiais, demitiu-se do emprego, e partiu para uma viagem de um ano pelo mundo - sozinha. Comer, Rezar, Amar é a envolvente crônica desse ano. O objetivo de Gilbert era visitar três lugares onde pudesse examinar aspectos de sua própria natureza, tendo como cenário uma cultura que, tradicionalmente, fosse especialista em cada um deles. "Assim, quis explorar a arte do prazer na Itália, a arte da devoção na Índia, e, na Indonésia, a arte de equilibrar as duas coisas", explica.

Em Roma, estudou gastronomia, aprendeu a falar italiano e engordou os onze quilos mais felizes de sua vida. Na Índia dedicou-se à exploração espiritual e, com a ajuda de uma guru indiana e de um caubói texano surpreendentemente sábio, viajou durante quatro meses. Já em Bali, exercitou o equilíbrio entre o prazer mundano e a transcendência divina. Tornou-se discípula de um velho xamã, e também se apaixonou da melhor maneira possível: inesperadamente.

Escrito com ironia, humor e inteligência, o best seller de Elizabeth Gilbert é um relato sobre a importância de assumir a responsabilidade pelo próprio contentamento e parar de viver conforme os ideais da sociedade. É um livro para qualquer um que já tenha se sentido perdido, ou pensado que deveria existir um caminho diferente, e melhor."
Não foi o melhor livro que li este ano, aliás, comecei a ler... larguei-o, li outros entretanto, mas depois algo despertou a minha atenção e acabei-o num instante.
A verdade é que a primeira parte que se refere à acção que se desenrola em Itália - " comer" - foi para mim, demasiada morosa. A segunda parte, na Índia - "orar" - foi muito mais interessante e aliciante assim como a terceira parte da obra - "amar" - temos direito a um amante, falante da língua lusa.
Não é um romance com acções que nos prendem uma atrás das outras, todavia é de leitura agradável e simples. Acho que esta auto-biografia deve ser saboreada naqueles momentos em que a nossa "Alma" pede umas leituras mais leves, sem grandes intrigas e sem grandes enredos.
Nota: 7/10

domingo, 12 de abril de 2009

O Incrível Rapaz que comia Livros

Sinopse: "Esta é a história de um rapaz com um apetite insaciável... por livros. Um dia, assim por acaso, o Henrique descobre esta estranha paixão, que se transforma numa mania constante e deliciosa! E eis a parte melhor: quanto mais livros devora, mais esperto fica. O Henrique sonha tornar-se na pessoa mais esperta do mundo. Até que percebe os malefícios deste hábito peculiar.... Já não consegue digerir bem, as coisas que aprendeu começam a ficar todas baralhadas e tem de parar."

Este fim de semana, dedicamos os nossos tempos livres a leituras e mais leituras... Até compramos mais livros (suicídio total: eu e as princesas numa livraria) em vez de comprar as tradicionais amêndoas e os grandes ovos da Páscoa.
Lemos este livro muito rapidamente, analisamos cada folha na medida em que tem ilustrações deveras interessantes e um contra-capa deliciosa, como podem ver (o nosso incrível rapaz continua a dar trincas em alguns exemplares).

É uma história engraçada, que incentiva os mais novos a ganharem o gosto pelos livros; não literalmente... gosto de "gostar de comer" mas sim gosto em aprender o que eles de mais precioso contém.
Divertido, simples mas de óptima qualidade, esta obra ganhou o prémio de Melhor Livro Infantil em 2007 atribuído pelo Irish Book Awards.
Nota: 7/10

sábado, 11 de abril de 2009

O Pássaro da Alma

Sinospe: "Desta obra pouco se poderá dizer pois é pura e simplesmente belíssima. Um livro para todas as idades que nos explica de forma poética e única o que é a alma. É um texto essencial num mundo que muitos criticam pela crescente falta de valores e de uma moral. Este livro apela a um conhecimento do nosso mais íntimo e profundo sentir, explicando por via desse pássaro, clara metáfora, aquilo que sentimos, como o sentimos e porque o sentimos. Pela singeleza do conteúdo e pela estética do arranjo dos desenhos de Naama Golomb, é uma obra que tem ganho, desde a sua publicação em 1993, uma reputação internacional que levou a que fosse traduzida em mais de vinte cinco línguas, e em todos os países recebeu prémios e veio a tornar-se best-seller. O livro recebeu o primeiro Prémio Internacional, da Fundação Espaço Crianças em Genebra."
Sobre a autora: "Michal Snunit, autora israelita, atingiu a fama com esta obra e, daí para cá produziu dezenas de livros dentro do mesmo estilo que receberam inúmeros prémios em todo o mundo. Tem sido considerada uma das melhores escritoras infantis contemporâneas e a sua obra originalmente destinada aos mais pequenos tem vindo a ser lida por adultos com o mesmo prazer."

"No fundo, bem lá no fundo do corpo, mora a alma.
Ainda não houve quem a visse,
Mas todos sabem que existe.
E não só sabem que existe,
Como também sabem o que lá tem dentro.
Dentro da alma,
Lá bem no centro,
Pousado numa pata,
Está um pássaro.
E o nome desse pássaro é o pássaro da Alma.
E ele sente tudo o que nós sentimos:
Quando alguém nos magoa, o pássaro da alma agita-se para lá e para cá
Em todos os sentidos dentro do nosso corpo, sofre muito.
Quando alguém nos ama,
O pássaro da alma dá pulinhos
De contente,
Para trás e para a frente,
Vai e vem.
Quando alguém nos chama,
O pássaro da alma põe-se logo à escuta da voz,
A fim de reconhecer que tipo de apelo é.
Quando alguém se zanga connosco,
o pássaro da alma recolhe-se dentro de si,
Tristonho e silencioso.
E quando alguém nos abraça, o pássaro da alma
Que mora no fundo, bem lá no fundo do nosso corpo,
Começa a crescer, crescer,
Até encher quase todo o espaço dentro de nós,
Tão bom para ele é o abraço.
Dentro do corpo, no fundo, bem lá no fundo, mora a alma.
Ainda não houve quem a visse,
Mas todos sabem que ela existe.
E ainda nunca,
Nunca veio ao mundo alguém
Que não tivesse alma.
Porque a alma entra dentro de nós no momento em que nascemos
E não nos larga
- Nem uma só vez –
Até ao fim da vida.
Como o ar que o homem respira
Desde a hora em que nasce
Até à hora em que morre.
Decerto querem também saber de que é feito o pássaro da alma.
Ah, isso é mesmo muito fácil:
É feito de gavetas e mais gavetas.
Mas não podemos abrir as gavetas de qualquer maneira,
Pois cada uma delas tem uma chave para ela só!
E o pássaro da alma
É o único capaz de abrir as gavetas dele.
Como ?
Pois isso também é muito simples:
Com a segunda pata.
O pássaro da alma está pousado numa pata,
E com a outra – que em descanso está dobrada sob a barriga –
Roda a chave da gaveta que quer abrir,
Puxa pelo puxador, e tudo o que está dentro dela
Sai em liberdade para dentro do corpo.
E como tudo o que sentimos tem uma gaveta,
O pássaro da alma tem imensas gavetas.
A gaveta da alegria e a gaveta da tristeza.
A gaveta da inveja e a gaveta da esperança.
A gaveta da desilusão e a gaveta do desespero.
A gaveta da paciência e a gaveta do desassossego.
E mais a gaveta do ódio, a gaveta da cólera e a gaveta do mimo.
A gaveta da preguiça e a gaveta do vazio.
E a gaveta dos segredos mais escondidos,
Uma gaveta que quase nunca abrimos.
E há mais gavetas.
Vocês podem juntar todas as que quiserem.
Às vezes uma pessoa pode escolher e indicar ao pássaro
As chaves a rodar e as gavetas a abrir.
E outras vezes é o pássaro quem decide.
Por exemplo: a pessoa quer estar calada e diz ao pássaro para abrir
A gaveta do silêncio. Mas ele, por auto-recriação,
Abre-lhe a gaveta da fala,
E ela desata a falar, a falar sem querer.
Outro exemplo: a pessoa quer escutar pacientemente
- E em vez disso ele abre-lhe a gaveta do desassossego
Que faz com que ela se enerve.
E acontece que a pessoa tenha ciúmes sem qualquer motivo.
E que estrague justamente quando mais quer ajudar.
Porque o pássaro da alma nem sempre é disciplinado
E às vezes dá-lhe trabalhos...
Agora já compreendemos que cada homem é diferente do seu semelhante
Por causa do pássaro da alma que tem dentro de si.
O pássaro que em certas manhãs abre a gaveta da alegria,
E a alegria jorra para dentro do corpo
E o dono dele fica feliz.
E quando o pássaro lhe abre
A gaveta da raiva,
A raiva escorre de dentro dela e
Domina-o totalmente.
E até que o pássaro
Volte a fechar a gaveta
ele não pára
De se zangar.
E quando o pássaro está de mau humor
Abre gavetas que dão mal-estar.
E quando o pássaro está de bom humor
Escolhe gavetas que fazem bem.
E o mais importante – é escutar logo o pássaro.
Pois acontece o pássaro da alma chamar por nós, e nós não o ouvirmos.
É pena. Ele quer falar-nos de nós próprios.
Quer falar-nos dos sentimentos que estão encerrados nas gavetas
Dentro de nós.
Há quem o ouça muitas vezes.
Há quem o ouça raras vezes,
E há quem o ouça
Uma única vez na vida.
Por isso vale a pena
Talvez tarde pela noite, quando o silêncio nos rodeia,
Escutar o pássaro da alma que mora dentro de nós,
No fundo, lá bem no fundo do corpo."
Cópia na íntegra.
Fui convidada para uma sessão de leitura do livro O Pássaro da Alma. Foi algo memóravel...
Não foi fácil adquiri-lo mas já está comigo... só posso dizer que agradeço do fundo do coração a leitura que foi feita; obrigado Miguel...
Abriram-se novas gavetas na minha alma, recomendo para pequenos e grandes: uma verdadeira obra de arte.
Nota: 10/10

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Feliz e Santa Páscoa a todos os amigos da Floresta das Leituras

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Gaspar e Mariana

Esta obra de Maria Teresa Maia Gonzalez retrata, como é seu hábito (e quem já a lê há uns anos habituou-se a ver para lá das palavras), o valor da amizade, da solidariedade, do companheirismo, da compreensão, da esperança, da inocência, da simplicidade. Por outro lado, autora não se esquece de, sorrateiramente, abordar situações do quotidiano onde as problemáticas do alcoolismo, da falsa religião, do ensino sem significado, da família desestruturada e da falsidade nas relações humanas coexistem, por muito que queiramos esconder com os valores humanos que aí sobressaem.

Mariana é uma menina cega, que não sai de casa, não conhece o mundo, não percebe o significado das palavras, dos sentimentos. A sua mãe trabalhava durante o dia numa fábrica, o seu pai “que gostava do mar, não o temia e até ficou lá, quando era pequenina…foi e não voltou mais…porque gostava muito dele e quis lá ficar (p. 80)”. Só Gaspar lhe fazia companhia e tudo lhe explicava, com a maior simplicidade, com a compreensão de um autêntico irmão. É ele quem lhe oferece um cãozito, o Camisolinha, que irá ser o seu companheiro quando Gaspar desaparece da sua vida.

Não irei desvendar mais sobre este livro, recomendado pelo Plano Nacional de Leitura. É uma obra que merece ser lida e bem reflectida, pois as palavras e as situações aí retratadas deixam-nos a pensar e a imaginar o que será o mundo às escuras e como se consegue explicar a alguém conceitos e ideias tão abstractos, quando não se possui visão. Há um encontro entre dois mundos: o do Gaspar e o da Mariana. Muitas pessoas deveriam conhecê-lo e aprenderiam a entender as vivências, dificuldades e agruras da sociedade, através de belos diálogos entre duas crianças.
Reparem neste segmento do texto:

“- Ouve lá, Gaspar, como é que é o azul?
-O azul?
- Sim, a cor do céu. Como é?
- Bom, o azul…é fofo, assim como o tapete que está ao pé da tua cama; parece que sopra e voa; o azul está no ar, quando faz sol, no Verão…
- Ah… estou a perceber. O azul é levezinho.
- É, é muito leve, assim como se eu soprar devagarinho na tua mão… (p. 51).”

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um dia vou construir um Castelo

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta."

Augusto Cury in Dez Leis para ser Feliz

"Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Autoria atribuida a Fernando Pessoa no entanto, não consegui confirmar.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Manual do Guerreiro da Luz

Sinopse: "Os textos aqui reunidos, pensamentos tão breves quanto profundos, tão belos quanto envolventes, levam o leitor a mergulhar no mais íntimo de si mesmo, em busca de sonhos antigos e desejos esquecidos, indispensáveis à nossa felicidade. O Guerreiro da Luz, personagem central deste livro, é alguém que é capaz de ouvir o que lhe diz o silêncio do seu coração, de aceitar as derrotas sem se deixar abater por elas e de construir e cumprir a sua Lenda Pessoal. Na verdade, o Guerreiro da Luz é aquilo que cada um de nós pode ser se escolher aceitar o seu destino. Como resposta a insistentes pedidos dos leitores, a Editora Pergaminho apresenta agora uma edição compacta deste Manual do Guerreiro da Luz, que poderá acompanhar cada um de nós no percurso diário do seu caminho espiritual."
Paulo Coelho continua a ser um dos meus autores favoritos; sempre actual, as suas obras estão repletas de simbolismo, mensagens e ensinamentos através da experiência da Vida.
O Manual do Guerreiro da Luz - cerca de 150 páginas de reflexões sobre a Vida, sobre o Ser Humano, sobre a aprendizagem da sobrevivência na sociedade...
«"A primeira qualidade do caminho espiritual é a coragem", dizia Gandhi.
O mundo parece ameaçador e perigoso para os covardes. Estes procuram a segurança mentirosa de uma vida sem grandes desafios, e armam-se até aos dentes para defender aquilo que julgam possuir. Os covardes acabam construindo as grades da própria prisão.
O guerreiro da luz projecta o seu pensamento para além do horizonte. sabe que, se não fizer nada pelo mundo, ninguém o fará.»
p. 136
Nota: 7/10